domingo, abril 17, 2005
quarta-feira, abril 13, 2005
o corpo da terra
nos momentos em que o meu corpo é
o corpo da terra
eu queria fazer amor contigo
num fluir universal de raízes
o corpo da terra
eu queria fazer amor contigo
num fluir universal de raízes
terça-feira, abril 12, 2005
falta
sei desta dor como água salgada
porque me sofres cá dentro de vez em quando
porque em mim apenas Te pressinto
montes e vales à procura do país que soube um dia
porque me esqueci de Mim
Te espero
na nostalgia de um toque imenso e todo
porque me sofres cá dentro de vez em quando
porque em mim apenas Te pressinto
montes e vales à procura do país que soube um dia
porque me esqueci de Mim
Te espero
na nostalgia de um toque imenso e todo
domingo, abril 03, 2005
sexta-feira, abril 01, 2005
quase sem querer
senti a tua boca quase sem querer
e apeteceu-me uma colina
um chão
perfume da terra perfume de ti
mãos vales rios
à procura
nos olhos de uma noite qualquer
quente
sem remorsos
e apeteceu-me uma colina
um chão
perfume da terra perfume de ti
mãos vales rios
à procura
nos olhos de uma noite qualquer
quente
sem remorsos
domingo, março 27, 2005
Páscoa
foi no domingo de Páscoa de 1975, por volta do meio dia,
que a minha filha foi concebida
sem pecado
estava sol
:)
que a minha filha foi concebida
sem pecado
estava sol
:)
domingo, março 20, 2005
quarta-feira, março 16, 2005
mes mains volent pour se rejoindre
Comme des colombes en désaccord
mes mains volent entre les secrets
mes mains volent entre les secrets
pour se rejoindre dans la saison
où les oiseaux chantent l'amour
d'être entourés d'eux mêmes.
où les oiseaux chantent l'amour
d'être entourés d'eux mêmes.
Natália Correia
13set23/16mar93
inédito (56/57)
quarta-feira, março 09, 2005
domingo, março 06, 2005
fuga
deixem-me ficar aqui
dormir
e saber que o comboio me espera
no lago
no silêncio assombrado
dentro da boca
Partir
"poeticamente habitar"
comer a terra
e subir às árvores
no desespero da fuga
Estar só
com medo da solidão
E viver aí
saboreando o azedo visceral
da inquietude
1973
dormir
e saber que o comboio me espera
no lago
no silêncio assombrado
dentro da boca
Partir
"poeticamente habitar"
comer a terra
e subir às árvores
no desespero da fuga
Estar só
com medo da solidão
E viver aí
saboreando o azedo visceral
da inquietude
1973
quarta-feira, março 02, 2005
Do amor que acorda o espírito que dorme
A ALMA
Votada ao fogo obediente ao perigo
feroz do amor ser muito e o tempo pouco,
Chegas ébrio de sonho, ó estranho amigo
E eu não sei se por mim és anjo ou louco.
Num beijo infindo queres morrer comigo.
Nesse extremo és sagrado e eu não te toco.
Esquivo-me: o teu sonho mais instigo.
Fujo-te: a tua chama mais provoco.
A incêndio do teu sangue me condenas
E com ciumentas ervas te envenenas
Dizendo às nuvens que só tu me viste.
Bebendo o vinho de amantes mortos queres
Que eu seja a mais prateada das mulheres.
E de ser tão amada eu fico triste.
Natália Correia
In Sonetos Românticos, 1990
Votada ao fogo obediente ao perigo
feroz do amor ser muito e o tempo pouco,
Chegas ébrio de sonho, ó estranho amigo
E eu não sei se por mim és anjo ou louco.
Num beijo infindo queres morrer comigo.
Nesse extremo és sagrado e eu não te toco.
Esquivo-me: o teu sonho mais instigo.
Fujo-te: a tua chama mais provoco.
A incêndio do teu sangue me condenas
E com ciumentas ervas te envenenas
Dizendo às nuvens que só tu me viste.
Bebendo o vinho de amantes mortos queres
Que eu seja a mais prateada das mulheres.
E de ser tão amada eu fico triste.
Natália Correia
In Sonetos Românticos, 1990
domingo, fevereiro 27, 2005
terça-feira, fevereiro 22, 2005
miragem
Era uma vez uma pétala
ou um mar
ou nada
O princípio, queria dizer
O princípio
Era uma vez um calor que transbordou
Ilha, pedra, canto
e um rio em flor dentro de casa
Um dia de azul miragem
Era uma vez
era uma
depois mil
de uma vez
ou um mar
ou nada
O princípio, queria dizer
O princípio
Era uma vez um calor que transbordou
Ilha, pedra, canto
e um rio em flor dentro de casa
Um dia de azul miragem
Era uma vez
era uma
depois mil
de uma vez
domingo, fevereiro 20, 2005
sexta-feira, fevereiro 18, 2005
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
domingo, fevereiro 13, 2005
segunda-feira, fevereiro 07, 2005
a princesinha branca

voltou ontem para a sua casa de adopção
depois de uma temporada aqui ao pé da mãe e dos irmãos
vou ficar atenta
;)
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
terça-feira, fevereiro 01, 2005
segunda-feira, janeiro 31, 2005
sexta-feira, janeiro 28, 2005
o gato
terça-feira, janeiro 25, 2005
o amor mais fundo
este é o amor mais fundo
porque a boca dela
repousa e fica doida
na boca dele
porque se abrem uma na outra
e querem morrer assim
uma na outra
abril94
porque a boca dela
repousa e fica doida
na boca dele
porque se abrem uma na outra
e querem morrer assim
uma na outra
abril94
domingo, janeiro 23, 2005
à memória da Bia, a gata de olhos de âmbar
Somente o traço que ficou no céu
importa agora
e se foi de alegria
em cada hora
e de busca de encontro e companhia
o quererá no céu sulcar também
com renovada asa
qualquer homem por vir
as nuvens tendo por casa
as estrelas por lanterna
e em cada breve momento
a vida eterna.
Agostinho da Silva
(poema para um pássaro morto)
quinta-feira, janeiro 20, 2005
faz parte...
ontem à tarde deixei a porta da cozinha entreaberta enquanto os meus pequenos gatos andavam na passeata do costume pelo quintal e arredores...
mais tarde dei-me conta de que tinha havido uma visita inesperada, quando me subiu ao nariz o inconfundível aroma de marcação de território de macho adulto
DENTRO DA COZINHA!! :/
andei a cheirar os cantos e as esquinas (riam-se, riam-se! :]
e percebi onde é que o diabo do gato visitante andou a fazer as suas aspergidelas
nem mais nem menos que DENTRO dos armários dos tachos e das loiças e tupperwares!!
tenho um belo trabalhinho para esta tarde...
fiquem bem
:)
mais tarde dei-me conta de que tinha havido uma visita inesperada, quando me subiu ao nariz o inconfundível aroma de marcação de território de macho adulto
DENTRO DA COZINHA!! :/
andei a cheirar os cantos e as esquinas (riam-se, riam-se! :]
e percebi onde é que o diabo do gato visitante andou a fazer as suas aspergidelas
nem mais nem menos que DENTRO dos armários dos tachos e das loiças e tupperwares!!
tenho um belo trabalhinho para esta tarde...
fiquem bem
:)
quarta-feira, janeiro 19, 2005
terça-feira, janeiro 18, 2005
Ela e só ela
Sabes o que ele me disse? Que aquilo é como a primeira namorada. Adormeces a pensar nela e acordas a pensar nela.
Eu já sabia, já te tinha dito, lembras-te?, eu já sabia mas não queria ter a certeza.
Foi assim. Telefonei ontem à hora do almoço lá para casa e a mãe, devia ser a mãe, era a mãe com certeza, disse-me que ele ainda estava a dormir. Há uma data de dias que não o via, não podia mais. Peguei no carro e fui lá.
Quando cheguei, estava a tomar duche e tive de esperar um bocadinho no quarto dele. Ao lado da cama havia um monte de revistas e álbuns de banda desenhada. Na parede um poster a preto e branco do Ian Curtis aos saltos. Sabes, o dos Joy Division que morreu? No chão, a roupa da noite. Entrou tão silenciosamente que, com o susto, gritei. Estava lindo, tão lindo dentro do roupão azul escuro. Nem imaginas como ele é lindo.
Foi tomar o pequeno almoço na cozinha com a mãe e depois disse-me para voltar com ele lá para cima. Fechou a porta atrás de nós mas não a fechou à chave, mas eu pensei de qualquer modo que ele me ia agarrar, beijar, deitar. Eu ainda só dormi com ele duas vezes, mas devia ser proibido fazer amor assim. Agarrou-me por dentro, sabes? Devia ser proibido. Uma pessoa não pode fazer nada.
Mas ele não me agarrou. Tomou um ar sério e disse-me para não ter medo e depois sorriu. Então começou a preparar aquilo. Eu não estava assustada mas fiquei muda todo o tempo. Passavam-me coisas tão depressa pela cabeça que eu não conseguia pensar em nada. Não conseguia tirar os olhos daquilo. Depois arrumou tudo e pôs um disco, como se nada fosse. Eu fiz de conta. Passado um bocadinho chegou um amigo dele, o Tó. Beberam uma cerveja e depois o Tó foi-se embora. Ele voltou a fechar a porta e voltou a preparar aquilo e a fumar aquilo. Para atestar, disse, percebes? Eu não lhe disse nada. Ele gostava mais daquilo do que de mim. Muito mais, tive a certeza. Apeteceu-me chorar mas não chorei. Olhei o Ian Curtis que continuava no seu salto e fiz como se tudo aquilo me fosse indiferente. Uma pessoa consegue.
Mas eu sei muito bem, eu é que lhe sou indiferente. Eu e o resto. Menos aquilo. O que aquilo faz é tornar tudo o resto indiferente, sabes? O verdadeiro inferno. Não me agarrou. Eu é que tive de o agarrar. Parecia um bebé a sorrir. E eu gosto tanto dele, merda. Despi-o e fiz-lhe amor e foi então, logo a seguir, que ele me disse: "Sabes, aquilo é como a primeira namorada. Adormeces a pensar nela e acordas a pensar nela."
Pedro Paixão
Viver todos os dias cansa, 95
Eu já sabia, já te tinha dito, lembras-te?, eu já sabia mas não queria ter a certeza.
Foi assim. Telefonei ontem à hora do almoço lá para casa e a mãe, devia ser a mãe, era a mãe com certeza, disse-me que ele ainda estava a dormir. Há uma data de dias que não o via, não podia mais. Peguei no carro e fui lá.
Quando cheguei, estava a tomar duche e tive de esperar um bocadinho no quarto dele. Ao lado da cama havia um monte de revistas e álbuns de banda desenhada. Na parede um poster a preto e branco do Ian Curtis aos saltos. Sabes, o dos Joy Division que morreu? No chão, a roupa da noite. Entrou tão silenciosamente que, com o susto, gritei. Estava lindo, tão lindo dentro do roupão azul escuro. Nem imaginas como ele é lindo.
Foi tomar o pequeno almoço na cozinha com a mãe e depois disse-me para voltar com ele lá para cima. Fechou a porta atrás de nós mas não a fechou à chave, mas eu pensei de qualquer modo que ele me ia agarrar, beijar, deitar. Eu ainda só dormi com ele duas vezes, mas devia ser proibido fazer amor assim. Agarrou-me por dentro, sabes? Devia ser proibido. Uma pessoa não pode fazer nada.
Mas ele não me agarrou. Tomou um ar sério e disse-me para não ter medo e depois sorriu. Então começou a preparar aquilo. Eu não estava assustada mas fiquei muda todo o tempo. Passavam-me coisas tão depressa pela cabeça que eu não conseguia pensar em nada. Não conseguia tirar os olhos daquilo. Depois arrumou tudo e pôs um disco, como se nada fosse. Eu fiz de conta. Passado um bocadinho chegou um amigo dele, o Tó. Beberam uma cerveja e depois o Tó foi-se embora. Ele voltou a fechar a porta e voltou a preparar aquilo e a fumar aquilo. Para atestar, disse, percebes? Eu não lhe disse nada. Ele gostava mais daquilo do que de mim. Muito mais, tive a certeza. Apeteceu-me chorar mas não chorei. Olhei o Ian Curtis que continuava no seu salto e fiz como se tudo aquilo me fosse indiferente. Uma pessoa consegue.
Mas eu sei muito bem, eu é que lhe sou indiferente. Eu e o resto. Menos aquilo. O que aquilo faz é tornar tudo o resto indiferente, sabes? O verdadeiro inferno. Não me agarrou. Eu é que tive de o agarrar. Parecia um bebé a sorrir. E eu gosto tanto dele, merda. Despi-o e fiz-lhe amor e foi então, logo a seguir, que ele me disse: "Sabes, aquilo é como a primeira namorada. Adormeces a pensar nela e acordas a pensar nela."
Pedro Paixão
Viver todos os dias cansa, 95
segunda-feira, janeiro 17, 2005
O António no hospital
Eu brincava com os dedos grandes dos pés dele, por debaixo dos lençóis todos brancos, enquanto ele dizia disparates, só disparates.
- Por ti deixava de roer as unhas e pintava-as de amarelo. Por ti sacrificava a minha pomba favorita. Tornava concretas todas as minhas ânsias. Por ti fazia tudo, menos que de mim fizesses outro.
Entretanto a fama da sua beleza percorria os corredores assépticos. Insistia em que lhe lavassem o cabelo, a ele que já nem sequer andar sabia. Por vezes duas facas espetavam-se-lhe nas costas e fazia uma careta que logo desfazia.
Eu continuava a brincar com os dedos grandes dos pés dele. Ele era como o mel e ninguém sabia porquê. Eu sim. Eu era a abelha subindo no ar que iria com ele até ao fim de tudo.
Pedro Paixão
Histórias verdadeiras,94
- Por ti deixava de roer as unhas e pintava-as de amarelo. Por ti sacrificava a minha pomba favorita. Tornava concretas todas as minhas ânsias. Por ti fazia tudo, menos que de mim fizesses outro.
Entretanto a fama da sua beleza percorria os corredores assépticos. Insistia em que lhe lavassem o cabelo, a ele que já nem sequer andar sabia. Por vezes duas facas espetavam-se-lhe nas costas e fazia uma careta que logo desfazia.
Eu continuava a brincar com os dedos grandes dos pés dele. Ele era como o mel e ninguém sabia porquê. Eu sim. Eu era a abelha subindo no ar que iria com ele até ao fim de tudo.
Pedro Paixão
Histórias verdadeiras,94
sábado, janeiro 15, 2005
terça-feira, janeiro 11, 2005
segunda-feira, janeiro 10, 2005
o cerco
essa tua boca em que eu me perco
é o meu cerco
é o meu aperto
e eu não sei ao certo
se te quero perto
se te quero longe para sempre
é o meu cerco
é o meu aperto
e eu não sei ao certo
se te quero perto
se te quero longe para sempre
sexta-feira, janeiro 07, 2005
puma

só o gato
apareceu completo
e orgulhoso
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer
apareceu completo
e orgulhoso
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer
excerto da Ode ao gato, de Neruda
quinta-feira, janeiro 06, 2005
quarta-feira, janeiro 05, 2005
canção para ti (1980)
anoiteceu, meu amor
o dia desceu no mar
escrevo o teu nome na areia
o tempo parou por instantes
vagueavas sozinho na praia
juntei-me a ti, mergulhei no teu silêncio mágico
lentamente
anoiteceu, meu amor, pressinto-te perto
corro descalça por ti, a lua poisou-te nos olhos
e soltei os cavalos do vento, demos as mãos
caminhámos num abraço eterno
tão ao longe
encontrei-te no mar, percorri-te de cor
nos teus braços de amor adormeci
embarquei no milagre que há em ti
perdi-me contigo no silêncio do cais...
amanheceu, meu amor
por dentro nasceu o sol
sobes por mim devagar, procuras o céu no meu corpo
num sorriso os teus olhos encontram nos meus
mais uma estrela que se acendeu
em ti deslizo mansamente
l.a.1980
o dia desceu no mar
escrevo o teu nome na areia
o tempo parou por instantes
vagueavas sozinho na praia
juntei-me a ti, mergulhei no teu silêncio mágico
lentamente
anoiteceu, meu amor, pressinto-te perto
corro descalça por ti, a lua poisou-te nos olhos
e soltei os cavalos do vento, demos as mãos
caminhámos num abraço eterno
tão ao longe
encontrei-te no mar, percorri-te de cor
nos teus braços de amor adormeci
embarquei no milagre que há em ti
perdi-me contigo no silêncio do cais...
amanheceu, meu amor
por dentro nasceu o sol
sobes por mim devagar, procuras o céu no meu corpo
num sorriso os teus olhos encontram nos meus
mais uma estrela que se acendeu
em ti deslizo mansamente
l.a.1980
terça-feira, janeiro 04, 2005
Helena, por quem os gregos se bateram
A Helena veio ontem visitar-nos. Telefonou do carro a dizer que vinha a caminho e trouxe o namorado. A Helena que eu não via há muito tempo por preguiça, medo, coisas árduas de lembrar, mal chegou tirou os sapatos e colocou-se em várias posições sobre os sofás da sala enquanto tocava nos assuntos mais diversos.
"A vida é uma coisa muito bonita que se estraga facilmente, tu não achas? Tens visto o nosso amigo João Luís?"
O João Luís há três anos que está fechado em casa, os estores corridos para não saber se é noite ou se é dia. Desde que caiu no patamar das escadas e partiu a mão nunca mais tocou um instrumento. Acredita que no céu vai poder mostrar todas as suas potencialidades. Deus queira.
"Tudo acabou como não devia. Foram sete anos só a viver para aquilo. Foi bom o tempo que dura uma nova paixão, uns seis meses. Depois é um inferno que tu não queres largar nem por nada. Quando entrei na clínica ia a ressacar, era a única, os outros tinham todos tomado a dose da manhã. Hás de me escrever uma canção, que eu quero subir ao palco outra vez. Ouviste?"
E pergunta-me pelo meu irmão Emmanuel que explodiu em casa depois de sete anos a tomar má heroína em vários estabelecimentos prisionais espalhados pelo país. Eu lembro-lhe de há muitos anos ela não me querer senão para chofer e, quando muito, amante ocasional.
"Sobreviver ao sucesso foi mais difícil do que tudo. De resto faço Chi Kung três vezes por semana como uma imperatriz da china imperial. Tu também não estás com mau aspecto. Não tomo comprimidos, detesto todos os químicos e nem quero microondas em casa."
A bela Helena, por quem os gregos se bateram, trazia o cabelo curto, os olhos cansados de ver coisas muito duras de se ver e tinha engordado alguns quilinhos espalhados pelo corpo. O que fazer quando deus nos deu um só talento assim tão grande e não se pode trabalhar?
Não sei o que vai acontecer. Por vezes penso que é bom poder voltar mais uma vez à superfície desta terra e adormeço tão suavemente que nem me dou conta de que partiram.
Pedro Paixão
Nos teus braços morreríamos, 98
"A vida é uma coisa muito bonita que se estraga facilmente, tu não achas? Tens visto o nosso amigo João Luís?"
O João Luís há três anos que está fechado em casa, os estores corridos para não saber se é noite ou se é dia. Desde que caiu no patamar das escadas e partiu a mão nunca mais tocou um instrumento. Acredita que no céu vai poder mostrar todas as suas potencialidades. Deus queira.
"Tudo acabou como não devia. Foram sete anos só a viver para aquilo. Foi bom o tempo que dura uma nova paixão, uns seis meses. Depois é um inferno que tu não queres largar nem por nada. Quando entrei na clínica ia a ressacar, era a única, os outros tinham todos tomado a dose da manhã. Hás de me escrever uma canção, que eu quero subir ao palco outra vez. Ouviste?"
E pergunta-me pelo meu irmão Emmanuel que explodiu em casa depois de sete anos a tomar má heroína em vários estabelecimentos prisionais espalhados pelo país. Eu lembro-lhe de há muitos anos ela não me querer senão para chofer e, quando muito, amante ocasional.
"Sobreviver ao sucesso foi mais difícil do que tudo. De resto faço Chi Kung três vezes por semana como uma imperatriz da china imperial. Tu também não estás com mau aspecto. Não tomo comprimidos, detesto todos os químicos e nem quero microondas em casa."
A bela Helena, por quem os gregos se bateram, trazia o cabelo curto, os olhos cansados de ver coisas muito duras de se ver e tinha engordado alguns quilinhos espalhados pelo corpo. O que fazer quando deus nos deu um só talento assim tão grande e não se pode trabalhar?
Não sei o que vai acontecer. Por vezes penso que é bom poder voltar mais uma vez à superfície desta terra e adormeço tão suavemente que nem me dou conta de que partiram.
Pedro Paixão
Nos teus braços morreríamos, 98
segunda-feira, janeiro 03, 2005
Ode à Paz
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!
Natália Correia, 1989
sexta-feira, dezembro 31, 2004
Parabéns, minha Princesa!
minha estrela, minha âncora, meu sol, minha vida, minha chata, minha adorada criatura de Deus, eu amo-te muito
sempre :)
quinta-feira, dezembro 30, 2004
o eco do tempo
sentei-me nas pedras
no meio das oliveiras
a ouvir o eco do tempo
ao longe na serra
uma voz clara e transparente cantava
uma música triste
e lembrei-me dos dias
em que a terra cheirava a hortelã
e o vento a maresia
no meio das oliveiras
a ouvir o eco do tempo
ao longe na serra
uma voz clara e transparente cantava
uma música triste
e lembrei-me dos dias
em que a terra cheirava a hortelã
e o vento a maresia
segunda-feira, dezembro 27, 2004
pulsar
descalcei-me na noite
para sentir o pulsar da terra
fechei os olhos devagar
e acordei
do outro lado do espelho
para sentir o pulsar da terra
fechei os olhos devagar
e acordei
do outro lado do espelho
sexta-feira, dezembro 24, 2004
Sol da Noite
Peregrinos da Estrela Flamejante!
amável é o Sol da Noite
que ilumina o caminho
para o Castelo das Almas.
amável é o Sol da Noite
que ilumina o caminho
para o Castelo das Almas.
Natália Correia
quinta-feira, dezembro 23, 2004
Ó véspera do prodígio!
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
Natália Correia
Sonetos Românticos
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
Natália Correia
Sonetos Românticos
quarta-feira, dezembro 22, 2004
terça-feira, dezembro 21, 2004
o teu coração é o meu coração
Mãezinha, o teu coração
É o meu coração,
o teu no meu fica apertadinho
Dou-te este cartão com amor e
carinho.
Sara
19 Maio 1985
segunda-feira, dezembro 20, 2004
jardim da sombra
toca-me de mansinho
e leva-me pela mão
ao jardim onde embarcámos um dia
no silêncio da chuva
percorre-me na sombra
e sê comigo
num momento eterno de sorriso
e leva-me pela mão
ao jardim onde embarcámos um dia
no silêncio da chuva
percorre-me na sombra
e sê comigo
num momento eterno de sorriso
sábado, dezembro 18, 2004
flores amarelas
trocámos duas flores amarelas
e seguimos lado a lado
com um certo calor no corpo
e frio no rosto
da tarde
trocámos flores amarelas
e um certo calor de mãos
domingo
na praça
e seguimos lado a lado
com um certo calor no corpo
e frio no rosto
da tarde
trocámos flores amarelas
e um certo calor de mãos
domingo
na praça
quarta-feira, dezembro 15, 2004
não me acordes
eu queria dormir acompanhada
daquele amor mais terno e mais sereno
daquele amor sem pingo do veneno
que de ciúme nos traz a vida envenenada
eu queria dormir profundamente
abraçada contigo docemente
como naquela primeira madrugada
oh meu amor, onde andas tu que não te sei
adormecido talvez num outro ombro
tão longe que me deixas tão sozinha
amor, vem ter comigo, a vida é breve
(eu não me esqueço, amor que não se escreve)
e se sonhar contigo for a única maneira
de te trazer para ao pé de mim a noite inteira
então dorme, querido
e não me acordes
porque hoje a noite é minha
não me acordes
daquele amor mais terno e mais sereno
daquele amor sem pingo do veneno
que de ciúme nos traz a vida envenenada
eu queria dormir profundamente
abraçada contigo docemente
como naquela primeira madrugada
oh meu amor, onde andas tu que não te sei
adormecido talvez num outro ombro
tão longe que me deixas tão sozinha
amor, vem ter comigo, a vida é breve
(eu não me esqueço, amor que não se escreve)
e se sonhar contigo for a única maneira
de te trazer para ao pé de mim a noite inteira
então dorme, querido
e não me acordes
porque hoje a noite é minha
não me acordes
segunda-feira, dezembro 13, 2004
Natal
Pim.
Som de cacos verdes. Transparentes.
Sinos de estrelas no ar.
como gaivotas na doca
Gestação. Nascer. Estar.
Amo-te.
Gémeos nascemos. Mas separados.
Beijos de encontro. Enfim, sós!
Natal. Corações quentes.
Solitários.
Sabes, eu gosto de ti.
Vamos ver as luzes.
Vamos para a chuva.
Dezembro, 1972 :)
Som de cacos verdes. Transparentes.
Sinos de estrelas no ar.
como gaivotas na doca
Gestação. Nascer. Estar.
Amo-te.
Gémeos nascemos. Mas separados.
Beijos de encontro. Enfim, sós!
Natal. Corações quentes.
Solitários.
Sabes, eu gosto de ti.
Vamos ver as luzes.
Vamos para a chuva.
Dezembro, 1972 :)
quinta-feira, dezembro 09, 2004
do lado de cá
depois saí para a chuva
sozinha e improvisada
corri perdida de amor
no corpo nos olhos
na noite esquecida do betão
e de mim
desvaneço agora o sorriso e as lágrimas
sou folha no vento, as mãos abandonadas
do lado de cá da vida
sozinha e improvisada
corri perdida de amor
no corpo nos olhos
na noite esquecida do betão
e de mim
desvaneço agora o sorriso e as lágrimas
sou folha no vento, as mãos abandonadas
do lado de cá da vida
sexta-feira, dezembro 03, 2004
terça-feira, novembro 30, 2004
sábado, novembro 27, 2004
o corpo da terra
nos momentos em que o meu corpo é
o corpo da terra
eu queria fazer amor contigo
num fluir universal de raízes
o corpo da terra
eu queria fazer amor contigo
num fluir universal de raízes
quinta-feira, novembro 18, 2004
à flor da água
páro um instante
enquanto a lua sobe
e a noite cresce lenta e segura
páro um instante
e invento o teu perfil
à flor da água nua e murmurante
enquanto a lua sobe
e a noite cresce lenta e segura
páro um instante
e invento o teu perfil
à flor da água nua e murmurante
quarta-feira, novembro 17, 2004
menino perdido
por onde andas tu, menino perdido
por onde andas tu e a tua sombra
a que horas me cruzei contigo na vida?
a que horas te encontras aonde?
demoras tanto tempo a vir
menino pedaço de abismo...
quem terá a sorte do teu calor
quem terá a sorte da tua boca
eu sei lá o que te importa!
sabes que te quero, eu sei que sabes
e mesmo que não venhas nunca mais
não fecho a porta
por onde andas tu e a tua sombra
a que horas me cruzei contigo na vida?
a que horas te encontras aonde?
demoras tanto tempo a vir
menino pedaço de abismo...
quem terá a sorte do teu calor
quem terá a sorte da tua boca
eu sei lá o que te importa!
sabes que te quero, eu sei que sabes
e mesmo que não venhas nunca mais
não fecho a porta
segunda-feira, novembro 15, 2004
quarta-feira, novembro 10, 2004
da noite
murmuras segredos da noite nos olhos
e no toque te sorrio
à procura, sempre
de um banco de areia morna no teu corpo
para deitar o meu cansaço
a pouco e pouco
murmuras segredos da noite nos olhos
e no toque te sorrio
à procura, sempre
do outro lado de mim
além de nós só os pássaros
e o mar ao longe
atormentado
e no toque te sorrio
à procura, sempre
de um banco de areia morna no teu corpo
para deitar o meu cansaço
a pouco e pouco
murmuras segredos da noite nos olhos
e no toque te sorrio
à procura, sempre
do outro lado de mim
além de nós só os pássaros
e o mar ao longe
atormentado
segunda-feira, novembro 08, 2004
e eu não sabia
possível como vento foste tu
e eu não sabia
que são fogo teus inventos
tua ausência
teus momentos controlados
e eu não sabia
que são fogo teus inventos
tua ausência
teus momentos controlados
sexta-feira, novembro 05, 2004
viajar viajar viajar
De vez em quando, assim de repente, tenho saudades,
de ver coisas pelos teus olhos. A estrada, um quarto
de hotel numa vila de província, estrelas numa noite
muito escura. Penso no teu nariz, do qual gosto muito
e não sei onde estará. Em grande parte o nosso des-
tino não somos nós que o fazemos; em grande parte.
Apesar da angústia e da ansiedade, gostava muito de
viajar contigo. É bom viajar contigo. É preciso continuar
a aprender a viajar viajar viajar viajar viajar.
o teu pedro
quarta-feira, novembro 03, 2004
Matisse revisitado

In his final years, Matisse focused on a technique using paper cut-outs. The artist died on November 3, 1954, in Nice.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















