se este filme fosse parar às escolas a revolução estaria na rua. sem sangue.
sê compassivo com o mais pequeno caracol.
domingo, setembro 01, 2013
segunda-feira, abril 29, 2013
Tolentino de Mendonça e o Cântico dos Cânticos
Ah és bela minha amada és tão bela teus olhos são pombas
por detrás de teu véu
teu cabelo um rebanho de cabras que descem do monte Galaad teus dentes rebanho de ovelhas tosquiadas que sobem do banho todas geraram suas crias nenhuma há estéril entre elas como fita escarlate teus lábios que formosa é tua boca tuas faces são metades de romãs por detrás de teu véu teu pescoço é a torre de David erguida sobre troféus
dela pendem mil escudos todos broquéis de valorosos
teus seios são dois filhotes gémeos de uma gazela
que se apascentam entre os lírios
antes que o dia expire e as sombras se alonguem
irei por mim ao monte da mirra e à colina do incenso
ah és bela minha amiga defeito não há em ti
Comigo do Líbano esposa vem comigo do Líbano
descerás do cimo de Amaná do cume de Senir e do Hermon
dos esconderijos dos leões dos barrancos dos leopardos
roubaste-me o coração minha irmã minha esposa roubaste-me o coração com um só dos teus olhares
com uma só conta dos teus colares
que doces tuas carícias minha irmã minha noiva melhores tuas carícias do que vinho
a fragrância de teus perfumes do que todos os odores
teus lábios são favos escorrendo ó esposa mel e leite sob a tua língua
o aroma dos teus vestidos é o aroma do Líbano.
És jardim fechado minha irmã minha esposa um jardim fechado uma fonte selada
as tuas plantas um bosque de romãzeiras com frutos deliciosos
com cipros e nardos nardo e açafrão
cálamo e canela e toda a sorte de árvores de incenso
mirra e aloés e os bálsamos escolhidos
a fonte do jardim uma cisterna de água viva que jorra desde o Líbano
levanta-te vento norte vem vento do sul soprai no meu jardim espalhem os seus perfumes
entra o meu amado no seu jardim e come seus frutos doces
(in «Cântico dos Cânticos»,
tradução do hebraico, introdução e notas de José Tolentino Mendonça*,
com ilustrações de Ilda David, Edição bilingue, Cotovia 1997)
José Tolentino Mendonça (Machico, 1965). Capelão da Universidade Católica de Lisboa até o ano de 2000, quando foi para Roma, onde se doutorou, tendo regressado a Lisboa, onde dá aulas na Faculdade de Teologia.
"Os Dias Contados", 1990; - poesia
"As Estratégias do Desejo: Um Discurso Bíblico sobre a Sexualidade",1994 - ensaio
"Longe Não Sabia", 1997 - poesia
"A que Distância Deixaste o Coração", 1998 - poesia
"Baldios", 1999 - poesia
"De igual para igual" (2001) - poesia
"A estrada branca" (2005). - poesia
Em 2005 publicou a peça de teatro "Perdoar Helena", já representada pelos Artistas Unidos, e a sua tese de doutoramento, "A Construção de Jesus".
Sobre a sua vocação religiosa confessou que "Foi uma coisa de juventude, inconsequente, imprudente, inesperada, que eu procuro manter. Ser padre é um nomadismo interior constante. É aceitar a pobreza como condição. E a pobreza é uma coisa chata de viver. É achar que isso pode ser uma forma de dizer alguma coisa ao seu tempo".
Tolentino Mendonça é autor da elogiada tradução do "Cântico dos Cânticos" (1997), publicou vários ensaios, escreveu teatro e está a traduzir os "Salmos".
teu cabelo um rebanho de cabras que descem do monte Galaad teus dentes rebanho de ovelhas tosquiadas que sobem do banho todas geraram suas crias nenhuma há estéril entre elas como fita escarlate teus lábios que formosa é tua boca tuas faces são metades de romãs por detrás de teu véu teu pescoço é a torre de David erguida sobre troféus
dela pendem mil escudos todos broquéis de valorosos
teus seios são dois filhotes gémeos de uma gazela
que se apascentam entre os lírios
antes que o dia expire e as sombras se alonguem
irei por mim ao monte da mirra e à colina do incenso
ah és bela minha amiga defeito não há em ti
Comigo do Líbano esposa vem comigo do Líbano
descerás do cimo de Amaná do cume de Senir e do Hermon
dos esconderijos dos leões dos barrancos dos leopardos
roubaste-me o coração minha irmã minha esposa roubaste-me o coração com um só dos teus olhares
com uma só conta dos teus colares
que doces tuas carícias minha irmã minha noiva melhores tuas carícias do que vinho
a fragrância de teus perfumes do que todos os odores
teus lábios são favos escorrendo ó esposa mel e leite sob a tua língua
o aroma dos teus vestidos é o aroma do Líbano.
És jardim fechado minha irmã minha esposa um jardim fechado uma fonte selada
as tuas plantas um bosque de romãzeiras com frutos deliciosos
com cipros e nardos nardo e açafrão
cálamo e canela e toda a sorte de árvores de incenso
mirra e aloés e os bálsamos escolhidos
a fonte do jardim uma cisterna de água viva que jorra desde o Líbano
levanta-te vento norte vem vento do sul soprai no meu jardim espalhem os seus perfumes
entra o meu amado no seu jardim e come seus frutos doces
(in «Cântico dos Cânticos»,
tradução do hebraico, introdução e notas de José Tolentino Mendonça*,
com ilustrações de Ilda David, Edição bilingue, Cotovia 1997)
José Tolentino Mendonça (Machico, 1965). Capelão da Universidade Católica de Lisboa até o ano de 2000, quando foi para Roma, onde se doutorou, tendo regressado a Lisboa, onde dá aulas na Faculdade de Teologia.
"Os Dias Contados", 1990; - poesia
"As Estratégias do Desejo: Um Discurso Bíblico sobre a Sexualidade",1994 - ensaio
"Longe Não Sabia", 1997 - poesia
"A que Distância Deixaste o Coração", 1998 - poesia
"Baldios", 1999 - poesia
"De igual para igual" (2001) - poesia
"A estrada branca" (2005). - poesia
Em 2005 publicou a peça de teatro "Perdoar Helena", já representada pelos Artistas Unidos, e a sua tese de doutoramento, "A Construção de Jesus".
Sobre a sua vocação religiosa confessou que "Foi uma coisa de juventude, inconsequente, imprudente, inesperada, que eu procuro manter. Ser padre é um nomadismo interior constante. É aceitar a pobreza como condição. E a pobreza é uma coisa chata de viver. É achar que isso pode ser uma forma de dizer alguma coisa ao seu tempo".
Tolentino Mendonça é autor da elogiada tradução do "Cântico dos Cânticos" (1997), publicou vários ensaios, escreveu teatro e está a traduzir os "Salmos".
sexta-feira, março 30, 2012
sábado, junho 05, 2010
terça-feira, fevereiro 16, 2010
sábado, janeiro 23, 2010
sexta-feira, janeiro 08, 2010
segunda-feira, janeiro 04, 2010
quarta-feira, dezembro 16, 2009
Ode ao Gato
Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite escura até aos olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa
única como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma única
ranhura
para lançar as moedas da noite.
Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no chão,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica
o gineceu com os seus extravios,
o mais e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
A minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.
Pablo Neruda
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite escura até aos olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa
única como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma única
ranhura
para lançar as moedas da noite.
Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no chão,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica
o gineceu com os seus extravios,
o mais e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
A minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.
Pablo Neruda
quinta-feira, dezembro 10, 2009
quarta-feira, novembro 25, 2009
verão?

As borboletas voam sobre o meu jardim
São cores vivas, pousam sobre as "onze horas"
Nas rosas claras, violetas e jasmins
Um beija-flor traindo a rosa amarela
Beijou a bela margarida infiel
Papoula e dália estão cravadas de ciúmes
E o beija-flor beijando flores a granel
Pétalas, asas amarelas
Pétalas, espinho seco
Folha, flor, lagarta
Pétalas
As flores voam e voltam na outra estação
Só serei flor quando tu fores Verão
Alceu Valença...
quarta-feira, outubro 21, 2009
segunda-feira, outubro 05, 2009
quarta-feira, janeiro 07, 2009
A deusa da Liberdade tem um gato a seus pés
Miu e mau eram os nomes que no Antigo Egipto se davam aos gatos. Mas a palavra gato (e cat, gatto, chat, Katze, etc.) vem de uma outra palavra do Antigo Egipto – utchat, mas já lá iremos.
Antes de serem feitos estudos genéticos, pensava-se que a domesticação do gato teria ocorrido várias vezes em várias partes do mundo, mas hoje sabe-se que todos os gatos domésticos tiveram a sua origem numa única parte do mundo, no Crescente Fértil (entre os rios Nilo, Tigris e Eufrates). O gato bravo – felis silvestris (FS), subdivide-se em 5 subespécies: FS silvestris (na Europa); FS lybica (norte de África e Médio Oriente); FS cafra (sul de África); FS bieti (deserto da China); e FS ornata (Paquistão, nordeste da Índia, Mongólia e norte da china). O gato domesticado – FS catus, é descendente apenas do FS lybica, tendo, depois de domesticado, se cruzado com as outras subespécies.
Ao contrário dos outros animais que foram domesticados, o gato participou activamente na domesticação, foi ele que veio ter connosco. E essa associação começou com as primeiras civilizações. Estas surgiram com a agricultura, há cerca de 12 mil anos atrás no Médio Oriente, e mais tarde no Sudeste da Ásia, Índia e China e América Central há cerca de 8 mil anos, entre outros lugares. Não se conhecem as razões exactas do surgimento da agricultura, mas as alterações climáticas devem ter contribuído bastante porque surgiu em várias partes do mundo relativamente ao mesmo tempo. Sabe-se que antes da agricultura já existiam comunidades humanas que faziam pão, há cerca de 24 mil anos, por isso devem ter sido múltiplas as causas para o seu surgimento.
O armazenamento dos cereais atraiu inúmeros roedores, que por sua vez atraiu os gatos selvagens que com o tempo se acostumaram a alguns humanos e estes aos gatos, vivendo desde então lado a lado ou mesmo conjuntamente. Os gatos eram tolerados e até queridos, por controlarem o número de roedores, vivendo à vontade, livres de entrar e sair entre as comunidades humanas, não sendo propriedade de ninguém. A prova da associação mais antiga entre essas duas espécies data de há 9 500 anos na ilha de Chipre onde foram encontrados numa sepultura as ossadas de um humano e de um gato juntos. Acrescenta-se que na ilha de Chipre não havia gatos nativos. O estudo genético mostrou também que o FS catus provém de pelo menos 5 linhagens maternais do FS lybica, o que sugere a possibilidade de ter havido mais que uma domesticação, mas todas restringidas ao Crescente Fértil do Médio Oriente. Em termos arqueológicos as mais antigas provas dessa associação foram encontradas no Antigo Egipto há cerca de 6 mil anos atrás, e daqui foram levados para outras civilizações, que os levaram para o mundo inteiro.
Antes de os deuses terem morrido de riso ao ouvir um deles dizer que era o único, nas palavras de Nietzsche, antes de se abstrair a razão humana e se criar um deus único, os antigos olharam para os outros animais e abstraíram deles certas qualidades, criando seres sobrenaturais ou divinos; tinham o culto da natureza. O principal deus egípcio, simbolizando o poder do sol era Ré, e devido à sua importância era associado a outros deuses, como Amon, ficando Amon-Rá. Segundo a mitologia Egípcia, durante a noite, Ré ficava vulnerável a ser atacado por uma Serpente. Os gatos durante a noite guardavam parte da luz do sol nos seus olhos e protegiam Ré da Grande Serpente. A grande utilidade dos gatos mais a sua beleza e nobreza de carácter deram origem a muitas entidades divinas. Assim, os gatos não eram considerados deuses, eram antes considerados protegidos pelos deuses, ou até, suas manifestações.
A deusa Bastet, representada por uma mulher com cabeça de gata, era a protectora dos gatos e inimiga das serpentes, deusa da alegria, da agilidade e da saúde, do amor maternal e da fertilidade, guardiã do lar e das crianças. Quando enraivecida transformava-se em Sekhmet, mulher com cabeça de leão, deusa da guerra e das doenças, transformando-se de novo na dócil Bastet depois de se acalmar. Mais tarde é representada também na forma de uma gata e passa a estar associada não só ao sol, mas também à lua. No período nocturno passa a estar associada sobretudo à fertilidade, à sexualidade e sensualidade. Bastet passa a Pasht, e daqui veio pussy, que em inglês significa gato, entre outras coisas.
Utchat era o olho de Ré, que é a origem da palavra gato, que vem do latim catus. Utchat, o olho de Ré ou de Horus era um símbolo protector muito importante, presente em muitos sítios desde casas, barcos a amuletos fúnebres. Olho de Ré, o olho divino que vê tudo, ainda hoje está presente na Maçonaria e no selo oficial dos EUA. Com o tempo este olho de Ré passa a estar associado a Bastet e ao olho-de-gato. Esse olho que reflecte a luz durante a noite e se assemelha a uma lua com a sua pupila umas vezes aberta, outras vezes fechada.
Do Egipto os gatos foram levados para outras civilizações, acabando por se encontrarem praticamente em todo o mundo. Devido à sua beleza, e à sua utilidade como caçadores de animais que facilmente se transformariam em pragas, os gatos foram de imediato aceites como animais de companhia e entraram para as respectivas mitologias. Na China davam boa sorte, em especial na área financeira, e espantavam os espíritos malignos. Tinham também um deus relacionado com a agricultura que assumia a sua forma. No Sudeste Asiático e Índia, influenciados pelo Budismo, os gatos eram um símbolo de sabedoria, prudência, auto-disciplina e meditação. Consta uma lenda ambígua, que relata que no momento da morte de Buda, “o gato” em vez de se lamentar, continuou indiferente a comer um rato; sugerindo que foi o único animal a compreender realmente a mensagem de Buda. No Japão, dizia-se que quando um gato morria, este transformava-se num espírito evoluído.
Na Europa Antiga, à semelhança de todas as outras civilizações, o gato foi bem acolhido, não só devido à sua utilidade (diz um provérbio – aquele que não alimentar o gato vai ter de alimentar os ratos) mas também devido à sua natureza que deu origem também a muitas entidades divinas, e muitas, muitas lendas.
Nos povos nórdicos, não só os vikings, mas em geral todos os povos germânicos, existia uma deusa com o nome de Freyja (que mais tarde deu Friday, Freitag, Fredag..., o dia de Freyja) que era simbolizada por uma mulher loira a conduzir uma carruagem puxada por dois gatos – Bygul (ouro de abelha – mel) e Trjegul (ouro de árvore – âmbar). Era a deusa do amor (tinham o costume de celebrar os casamentos às sextas-feiras), da beleza, da sexualidade, da fertilidade e do bem-estar, e também do nascimento e da morte. Era quem conduzia os heróis mortos em batalha, dando metade das almas a Odin, rei dos deuses (que o iriam ajudar a combater gigantes e monstros), ficando com a outra metade no seu domínio onde eram aquecidos e bem tratados, e onde mais tarde se juntariam às suas amantes ou esposas. Os gatos eram os animais preferidos da deusa, simbolizando carinho, sensualidade e fertilidade. Freyja, mais tarde, irá influenciar em muito, a visão que se tinha do gato na Idade Média cristianizada, como reacção, e de certa forma ainda a de hoje.
No Islão o gato sempre foi visto como uma criatura pura, e para isso terá contribuido o facto de os gatos terem muito cuidado com a sua higiene e limpeza, e o facto de Maomé ter convivido com vários. Duas lendas destacam-se na ilustração da importância dos gatos no Islão. Uma delas conta que um dos gatos de Maomé o terá salvo de uma serpente que estaria prestes a atacá-lo sem que este se tenha apercebido. Outra lenda conta que na hora de Maomé fazer a sua oração, o seu gato preferido, Muezza, estaria a dormir em cima de uma manga da sua túnica, e como Maomé o não quis acordar, cortou a manga da sua túnica e foi rezar.
Joseph Ratzinger, antes de ser o actual Papa Bento XVI, já vivia em Roma, como cardeal, presidindo uma congregação da Cúria Romana. Tinha dois gatos, um dos quais proveio das ruas de Roma. Costumava também de tratar e alimentar os que apareciam nos jardins onde trabalhava; e ainda hoje costuma cumprimentar alguns gatos das ruas perto do Vaticano. Mas a relação entre a Igreja Católica e os gatos nem sempre foi assim tão pacífica.
No início da cristianização da Europa, ainda no império romano, todas as outras religiões e cultos foram um alvo a abater. Se em 313, com o imperador Constantino, o Cristianismo passou a ser tolerado como mais uma religião, logo em 392, com o imperador Teodósio todas as outras religiões pagãs foram proibidas iniciando-se uma perseguição aos seus seguidores. Doravante a fé do império seria apenas a fé dos bispos de Roma e de Alexandria, conforme o seu édito. Em 388 uma sinagoga foi incendiada por cristãos e Teodósio mandou que se reconstruísse, mas o bispo de Milão (Santo Ambrósio) opôs-se, argumentando que queimar sinagogas era louvável e que o Imperador não tinha o direito de intervir em tais assuntos. O imperador acabou por ceder. Foi o início da submissão dos chefes de Estado ao poder da Igreja. Foi contudo com o Bispo de Roma, Leão I, que a Igreja começou a ser unificada e centralizada em Roma, ou seja a ideia de um sumo pontífice ou Papa começou a surgir a partir de 440, sendo o Bispo de Roma considerado o sucessor de S. Pedro exercendo a sua autoridade acima de os outros bispos. A relação entre os bispos de Roma e de Constantinopla nunca foi muito boa devido à separação do império romano em ocidente e oriente, e mais tarde com a fragmentação do ocidente em reinos germânicos. Contudo, o bispo de Roma, foi sempre respeitado por Roma ser a antiga capital do Império. Mas as diferenças como a subordinação do bispo de Constantinopla ao chefe de Estado do Império Bizantino, o apoio do Bispo de Roma ao Império Germano-Românico como o sucessor do Império Romano do Ocidente, entre outras razões, nomeadamente doutrinárias, culminaram no Cisma de 1054, quando ambos os bispos se excomungaram mutuamente.
As conversões dos povos pagãos (vikings, por exemplo) foram facilitadas pelas conversões dos seus chefes com o intuito de entrarem nas economias cristãs, mais prósperas, o facto de o próprio politeísmo já se encontrar em crise, e da tolerância do mesmo face a outros deuses. Já nos povos germânicos que ocuparam o antigo império romano, o facto da população ser romanizada e cristianizada fez com que os invasores se convertessem para melhor serem aceites. Missionários e cruzadas de reis cristãos com o intuito da conversão à força também ajudaram.
Chegados aqui, concluímos que os cultos pagãos não eram tolerados e que o Bispo de Roma tinha um enorme poder no Ocidente (já na Europa de Leste iria ser Constantinopla que acabaria por cristianizar os povos eslavos). Apesar disso, a Igreja não conseguiu acabar com certas práticas e rituais pagãos. Em vez de os eliminar, incorporou-os com outros nomes e fundamentos. No lugar dos principais templos pagãos construíram-se igrejas, e várias festas pagãs transformaram-se por exemplo no Natal, no dia de S. Valentim, no carnaval, na Páscoa (que em inglês e alemão ainda se chama de Easter e Ostern, respectivamente, em honra da deusa primaveril Eostre, ou Ostara), nas festas dos santos no Verão (S. António, S. João, etc.), e no dia de todos os Santos. Já os antigos deuses tornam-se demónios ou manifestações de Satanás, e os antigos sacerdotes e sacerdotisas das antigas religiões, relacionadas com cultos xamânicos, e que eram ao mesmo tempo curandeiros/as tornam-se bruxos/as, isto é, adoradores de Satanás. As mulheres tinham uma grande importância nesses cultos daí normalmente haver mais bruxas que bruxos, mas dependia do lugar. Freyja e os seus gatos eram agora maléficos e demoníacos (ainda para mais sendo um símbolo de sensualidade e erotismo), e certos símbolos da mitologia celta, que ainda persistiam, no continente europeu mas sobretudo nas ilhas britânicas, relacionados com práticas xamânicas e de curandeiros, como o caldeirão, e o facto de os gatos serem criaturas sagradas que faziam a ligação entre este mundo e o mundo espiritual, passaram a estar associadas ao Demónio. Claro, que por vezes, bastava haver uma viúva a viver sozinha, já com uma certa idade, e que ainda por cima falava com os seus gatos, para ser a responsável por todos os males da aldeia. O último julgamento e decapitação de uma bruxa na Europa foi na Suíça em 1782. As execuções formais eram feitas pelos Estados (fogueira, forca, prensagem, afogamento, esquartejamento, e decapitação), mas também havia as execuções informais, como a que houve no México em 1981 em que uma mulher acusada pelo seu marido de ser uma bruxa foi apedrejada até morrer, pelos seus vizinhos. As principais execuções foram feitas em França, Suíça e Alemanha, e sobretudo após a reforma protestante, tanto por católicos como por protestantes. O fenómeno da caça às bruxas é muitíssimo complexo, contudo, sabe-se que bruxas e gatos, sobretudo os negros eram encarados como seres malignos sendo estes considerados parentes daquelas, parentes demoníacos, enviados por Satanás, que assumiam a forma de um gato; entre outras razões, talvez por as bruxas falarem com os seus gatos. O gato passou a estar associado a heresias. Eram mortos com ou sem as suas bruxas. Eram emparedados vivos, crucificados, enforcados, esfolados vivos, atirados das torres de catedrais, ou simplesmente queimados; por vezes nas festas de Verão, onde punham vários gatos vivos em sacos e os atiravam para fogueiras. O número de gatos diminuiu seriamente na Europa, durante a Idade Média, o que fez aumentar o número de roedores, o que por sua vez contribuiu para a disseminação da peste bubónica. Ironicamente, culpou-se os gatos e as bruxas pela peste. Assim é bastante irónico o actual Papa ser um amante de gatos, depois de o Papa Gregório IX, no sec. XIII fundar a Inquisição para combater os hereges, incluindo os gatos, em especial os negros; e de no sec. XV, o Papa Inocêncio VIII através de uma nova bula, ter reafirmado a perseguição das bruxas e dos seus gatos que deveriam ser queimados juntos. Só com o Iluminismo se começou a olhar para os gatos de outra maneira. Porém, ainda hoje o gato negro dá azar…
Ainda assim, sempre houve quem admirasse a graciosidade desse animal, e há inúmeras histórias engraçadas, como a invenção de Isaac Newton, da portinhola, para o seu gato poder sair e entrar quando lhe apetecesse, ou do gato negro de Winston Churchill que estava presente no Conselho de Ministros, na sua cadeira, ao lado de Churchill, durante a II Grande Guerra (e que não deu azar).
Agora que se aproxima o Natal, convém referir que um gato não é um brinquedo, nem uma mercadoria (se bem que já existem gatos geneticamente modificados para não causarem alergia a quem a tem, sinal dos tempos…), nem uma criança (apesar de eles verem o dono como a sua mãe gata de 2 pernas, se viver com ele desde tenra idade), nem um deus, nem um demónio, um gato é um felino que mia, e que humaniza a vida nas actuais sociedades tecnológicas e maquinizadas.
De todos os símbolos mitológicos que se atribuíram a essa criatura fofa, é de realçar a da liberdade e independência atribuído pelos romanos. Quem contribuiu mais para a disseminação do gato na Europa foram os romanos, através das suas legiões. O gato, símbolo de independência e de insubmissão era frequentemente uma mascote das legiões romanas, que acompanhavam as mesmas, também com o intuito de proteger as provisões de alimentos nos acampamentos de roedores. Eram também, por vezes, representadas cabeças de gato nos seus escudos. E a deusa da Liberdade, Libertas, era representada muitas vezes como uma mulher com um gato a seus pés.
Nuno Miguel Cruz
01-12-2008
in Tinta Fresca, jornal de arte, cultura e cidadania
Antes de serem feitos estudos genéticos, pensava-se que a domesticação do gato teria ocorrido várias vezes em várias partes do mundo, mas hoje sabe-se que todos os gatos domésticos tiveram a sua origem numa única parte do mundo, no Crescente Fértil (entre os rios Nilo, Tigris e Eufrates). O gato bravo – felis silvestris (FS), subdivide-se em 5 subespécies: FS silvestris (na Europa); FS lybica (norte de África e Médio Oriente); FS cafra (sul de África); FS bieti (deserto da China); e FS ornata (Paquistão, nordeste da Índia, Mongólia e norte da china). O gato domesticado – FS catus, é descendente apenas do FS lybica, tendo, depois de domesticado, se cruzado com as outras subespécies.
Ao contrário dos outros animais que foram domesticados, o gato participou activamente na domesticação, foi ele que veio ter connosco. E essa associação começou com as primeiras civilizações. Estas surgiram com a agricultura, há cerca de 12 mil anos atrás no Médio Oriente, e mais tarde no Sudeste da Ásia, Índia e China e América Central há cerca de 8 mil anos, entre outros lugares. Não se conhecem as razões exactas do surgimento da agricultura, mas as alterações climáticas devem ter contribuído bastante porque surgiu em várias partes do mundo relativamente ao mesmo tempo. Sabe-se que antes da agricultura já existiam comunidades humanas que faziam pão, há cerca de 24 mil anos, por isso devem ter sido múltiplas as causas para o seu surgimento.
O armazenamento dos cereais atraiu inúmeros roedores, que por sua vez atraiu os gatos selvagens que com o tempo se acostumaram a alguns humanos e estes aos gatos, vivendo desde então lado a lado ou mesmo conjuntamente. Os gatos eram tolerados e até queridos, por controlarem o número de roedores, vivendo à vontade, livres de entrar e sair entre as comunidades humanas, não sendo propriedade de ninguém. A prova da associação mais antiga entre essas duas espécies data de há 9 500 anos na ilha de Chipre onde foram encontrados numa sepultura as ossadas de um humano e de um gato juntos. Acrescenta-se que na ilha de Chipre não havia gatos nativos. O estudo genético mostrou também que o FS catus provém de pelo menos 5 linhagens maternais do FS lybica, o que sugere a possibilidade de ter havido mais que uma domesticação, mas todas restringidas ao Crescente Fértil do Médio Oriente. Em termos arqueológicos as mais antigas provas dessa associação foram encontradas no Antigo Egipto há cerca de 6 mil anos atrás, e daqui foram levados para outras civilizações, que os levaram para o mundo inteiro.
Antes de os deuses terem morrido de riso ao ouvir um deles dizer que era o único, nas palavras de Nietzsche, antes de se abstrair a razão humana e se criar um deus único, os antigos olharam para os outros animais e abstraíram deles certas qualidades, criando seres sobrenaturais ou divinos; tinham o culto da natureza. O principal deus egípcio, simbolizando o poder do sol era Ré, e devido à sua importância era associado a outros deuses, como Amon, ficando Amon-Rá. Segundo a mitologia Egípcia, durante a noite, Ré ficava vulnerável a ser atacado por uma Serpente. Os gatos durante a noite guardavam parte da luz do sol nos seus olhos e protegiam Ré da Grande Serpente. A grande utilidade dos gatos mais a sua beleza e nobreza de carácter deram origem a muitas entidades divinas. Assim, os gatos não eram considerados deuses, eram antes considerados protegidos pelos deuses, ou até, suas manifestações.
A deusa Bastet, representada por uma mulher com cabeça de gata, era a protectora dos gatos e inimiga das serpentes, deusa da alegria, da agilidade e da saúde, do amor maternal e da fertilidade, guardiã do lar e das crianças. Quando enraivecida transformava-se em Sekhmet, mulher com cabeça de leão, deusa da guerra e das doenças, transformando-se de novo na dócil Bastet depois de se acalmar. Mais tarde é representada também na forma de uma gata e passa a estar associada não só ao sol, mas também à lua. No período nocturno passa a estar associada sobretudo à fertilidade, à sexualidade e sensualidade. Bastet passa a Pasht, e daqui veio pussy, que em inglês significa gato, entre outras coisas.
Utchat era o olho de Ré, que é a origem da palavra gato, que vem do latim catus. Utchat, o olho de Ré ou de Horus era um símbolo protector muito importante, presente em muitos sítios desde casas, barcos a amuletos fúnebres. Olho de Ré, o olho divino que vê tudo, ainda hoje está presente na Maçonaria e no selo oficial dos EUA. Com o tempo este olho de Ré passa a estar associado a Bastet e ao olho-de-gato. Esse olho que reflecte a luz durante a noite e se assemelha a uma lua com a sua pupila umas vezes aberta, outras vezes fechada.
Do Egipto os gatos foram levados para outras civilizações, acabando por se encontrarem praticamente em todo o mundo. Devido à sua beleza, e à sua utilidade como caçadores de animais que facilmente se transformariam em pragas, os gatos foram de imediato aceites como animais de companhia e entraram para as respectivas mitologias. Na China davam boa sorte, em especial na área financeira, e espantavam os espíritos malignos. Tinham também um deus relacionado com a agricultura que assumia a sua forma. No Sudeste Asiático e Índia, influenciados pelo Budismo, os gatos eram um símbolo de sabedoria, prudência, auto-disciplina e meditação. Consta uma lenda ambígua, que relata que no momento da morte de Buda, “o gato” em vez de se lamentar, continuou indiferente a comer um rato; sugerindo que foi o único animal a compreender realmente a mensagem de Buda. No Japão, dizia-se que quando um gato morria, este transformava-se num espírito evoluído.
Na Europa Antiga, à semelhança de todas as outras civilizações, o gato foi bem acolhido, não só devido à sua utilidade (diz um provérbio – aquele que não alimentar o gato vai ter de alimentar os ratos) mas também devido à sua natureza que deu origem também a muitas entidades divinas, e muitas, muitas lendas.
Nos povos nórdicos, não só os vikings, mas em geral todos os povos germânicos, existia uma deusa com o nome de Freyja (que mais tarde deu Friday, Freitag, Fredag..., o dia de Freyja) que era simbolizada por uma mulher loira a conduzir uma carruagem puxada por dois gatos – Bygul (ouro de abelha – mel) e Trjegul (ouro de árvore – âmbar). Era a deusa do amor (tinham o costume de celebrar os casamentos às sextas-feiras), da beleza, da sexualidade, da fertilidade e do bem-estar, e também do nascimento e da morte. Era quem conduzia os heróis mortos em batalha, dando metade das almas a Odin, rei dos deuses (que o iriam ajudar a combater gigantes e monstros), ficando com a outra metade no seu domínio onde eram aquecidos e bem tratados, e onde mais tarde se juntariam às suas amantes ou esposas. Os gatos eram os animais preferidos da deusa, simbolizando carinho, sensualidade e fertilidade. Freyja, mais tarde, irá influenciar em muito, a visão que se tinha do gato na Idade Média cristianizada, como reacção, e de certa forma ainda a de hoje.
No Islão o gato sempre foi visto como uma criatura pura, e para isso terá contribuido o facto de os gatos terem muito cuidado com a sua higiene e limpeza, e o facto de Maomé ter convivido com vários. Duas lendas destacam-se na ilustração da importância dos gatos no Islão. Uma delas conta que um dos gatos de Maomé o terá salvo de uma serpente que estaria prestes a atacá-lo sem que este se tenha apercebido. Outra lenda conta que na hora de Maomé fazer a sua oração, o seu gato preferido, Muezza, estaria a dormir em cima de uma manga da sua túnica, e como Maomé o não quis acordar, cortou a manga da sua túnica e foi rezar.
Joseph Ratzinger, antes de ser o actual Papa Bento XVI, já vivia em Roma, como cardeal, presidindo uma congregação da Cúria Romana. Tinha dois gatos, um dos quais proveio das ruas de Roma. Costumava também de tratar e alimentar os que apareciam nos jardins onde trabalhava; e ainda hoje costuma cumprimentar alguns gatos das ruas perto do Vaticano. Mas a relação entre a Igreja Católica e os gatos nem sempre foi assim tão pacífica.
No início da cristianização da Europa, ainda no império romano, todas as outras religiões e cultos foram um alvo a abater. Se em 313, com o imperador Constantino, o Cristianismo passou a ser tolerado como mais uma religião, logo em 392, com o imperador Teodósio todas as outras religiões pagãs foram proibidas iniciando-se uma perseguição aos seus seguidores. Doravante a fé do império seria apenas a fé dos bispos de Roma e de Alexandria, conforme o seu édito. Em 388 uma sinagoga foi incendiada por cristãos e Teodósio mandou que se reconstruísse, mas o bispo de Milão (Santo Ambrósio) opôs-se, argumentando que queimar sinagogas era louvável e que o Imperador não tinha o direito de intervir em tais assuntos. O imperador acabou por ceder. Foi o início da submissão dos chefes de Estado ao poder da Igreja. Foi contudo com o Bispo de Roma, Leão I, que a Igreja começou a ser unificada e centralizada em Roma, ou seja a ideia de um sumo pontífice ou Papa começou a surgir a partir de 440, sendo o Bispo de Roma considerado o sucessor de S. Pedro exercendo a sua autoridade acima de os outros bispos. A relação entre os bispos de Roma e de Constantinopla nunca foi muito boa devido à separação do império romano em ocidente e oriente, e mais tarde com a fragmentação do ocidente em reinos germânicos. Contudo, o bispo de Roma, foi sempre respeitado por Roma ser a antiga capital do Império. Mas as diferenças como a subordinação do bispo de Constantinopla ao chefe de Estado do Império Bizantino, o apoio do Bispo de Roma ao Império Germano-Românico como o sucessor do Império Romano do Ocidente, entre outras razões, nomeadamente doutrinárias, culminaram no Cisma de 1054, quando ambos os bispos se excomungaram mutuamente.
As conversões dos povos pagãos (vikings, por exemplo) foram facilitadas pelas conversões dos seus chefes com o intuito de entrarem nas economias cristãs, mais prósperas, o facto de o próprio politeísmo já se encontrar em crise, e da tolerância do mesmo face a outros deuses. Já nos povos germânicos que ocuparam o antigo império romano, o facto da população ser romanizada e cristianizada fez com que os invasores se convertessem para melhor serem aceites. Missionários e cruzadas de reis cristãos com o intuito da conversão à força também ajudaram.
Chegados aqui, concluímos que os cultos pagãos não eram tolerados e que o Bispo de Roma tinha um enorme poder no Ocidente (já na Europa de Leste iria ser Constantinopla que acabaria por cristianizar os povos eslavos). Apesar disso, a Igreja não conseguiu acabar com certas práticas e rituais pagãos. Em vez de os eliminar, incorporou-os com outros nomes e fundamentos. No lugar dos principais templos pagãos construíram-se igrejas, e várias festas pagãs transformaram-se por exemplo no Natal, no dia de S. Valentim, no carnaval, na Páscoa (que em inglês e alemão ainda se chama de Easter e Ostern, respectivamente, em honra da deusa primaveril Eostre, ou Ostara), nas festas dos santos no Verão (S. António, S. João, etc.), e no dia de todos os Santos. Já os antigos deuses tornam-se demónios ou manifestações de Satanás, e os antigos sacerdotes e sacerdotisas das antigas religiões, relacionadas com cultos xamânicos, e que eram ao mesmo tempo curandeiros/as tornam-se bruxos/as, isto é, adoradores de Satanás. As mulheres tinham uma grande importância nesses cultos daí normalmente haver mais bruxas que bruxos, mas dependia do lugar. Freyja e os seus gatos eram agora maléficos e demoníacos (ainda para mais sendo um símbolo de sensualidade e erotismo), e certos símbolos da mitologia celta, que ainda persistiam, no continente europeu mas sobretudo nas ilhas britânicas, relacionados com práticas xamânicas e de curandeiros, como o caldeirão, e o facto de os gatos serem criaturas sagradas que faziam a ligação entre este mundo e o mundo espiritual, passaram a estar associadas ao Demónio. Claro, que por vezes, bastava haver uma viúva a viver sozinha, já com uma certa idade, e que ainda por cima falava com os seus gatos, para ser a responsável por todos os males da aldeia. O último julgamento e decapitação de uma bruxa na Europa foi na Suíça em 1782. As execuções formais eram feitas pelos Estados (fogueira, forca, prensagem, afogamento, esquartejamento, e decapitação), mas também havia as execuções informais, como a que houve no México em 1981 em que uma mulher acusada pelo seu marido de ser uma bruxa foi apedrejada até morrer, pelos seus vizinhos. As principais execuções foram feitas em França, Suíça e Alemanha, e sobretudo após a reforma protestante, tanto por católicos como por protestantes. O fenómeno da caça às bruxas é muitíssimo complexo, contudo, sabe-se que bruxas e gatos, sobretudo os negros eram encarados como seres malignos sendo estes considerados parentes daquelas, parentes demoníacos, enviados por Satanás, que assumiam a forma de um gato; entre outras razões, talvez por as bruxas falarem com os seus gatos. O gato passou a estar associado a heresias. Eram mortos com ou sem as suas bruxas. Eram emparedados vivos, crucificados, enforcados, esfolados vivos, atirados das torres de catedrais, ou simplesmente queimados; por vezes nas festas de Verão, onde punham vários gatos vivos em sacos e os atiravam para fogueiras. O número de gatos diminuiu seriamente na Europa, durante a Idade Média, o que fez aumentar o número de roedores, o que por sua vez contribuiu para a disseminação da peste bubónica. Ironicamente, culpou-se os gatos e as bruxas pela peste. Assim é bastante irónico o actual Papa ser um amante de gatos, depois de o Papa Gregório IX, no sec. XIII fundar a Inquisição para combater os hereges, incluindo os gatos, em especial os negros; e de no sec. XV, o Papa Inocêncio VIII através de uma nova bula, ter reafirmado a perseguição das bruxas e dos seus gatos que deveriam ser queimados juntos. Só com o Iluminismo se começou a olhar para os gatos de outra maneira. Porém, ainda hoje o gato negro dá azar…
Ainda assim, sempre houve quem admirasse a graciosidade desse animal, e há inúmeras histórias engraçadas, como a invenção de Isaac Newton, da portinhola, para o seu gato poder sair e entrar quando lhe apetecesse, ou do gato negro de Winston Churchill que estava presente no Conselho de Ministros, na sua cadeira, ao lado de Churchill, durante a II Grande Guerra (e que não deu azar).
Agora que se aproxima o Natal, convém referir que um gato não é um brinquedo, nem uma mercadoria (se bem que já existem gatos geneticamente modificados para não causarem alergia a quem a tem, sinal dos tempos…), nem uma criança (apesar de eles verem o dono como a sua mãe gata de 2 pernas, se viver com ele desde tenra idade), nem um deus, nem um demónio, um gato é um felino que mia, e que humaniza a vida nas actuais sociedades tecnológicas e maquinizadas.
De todos os símbolos mitológicos que se atribuíram a essa criatura fofa, é de realçar a da liberdade e independência atribuído pelos romanos. Quem contribuiu mais para a disseminação do gato na Europa foram os romanos, através das suas legiões. O gato, símbolo de independência e de insubmissão era frequentemente uma mascote das legiões romanas, que acompanhavam as mesmas, também com o intuito de proteger as provisões de alimentos nos acampamentos de roedores. Eram também, por vezes, representadas cabeças de gato nos seus escudos. E a deusa da Liberdade, Libertas, era representada muitas vezes como uma mulher com um gato a seus pés.
Nuno Miguel Cruz
01-12-2008
in Tinta Fresca, jornal de arte, cultura e cidadania
domingo, dezembro 21, 2008
quinta-feira, novembro 27, 2008
terça-feira, novembro 11, 2008
segunda-feira, novembro 03, 2008
terça-feira, setembro 23, 2008
quinta-feira, setembro 11, 2008
terça-feira, setembro 09, 2008
quinta-feira, agosto 28, 2008
tita
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a tita morreu
roubada por motivos fúteis e levada para o alentejo, não resistiu a 3 meses e meio de calor, sede, fome e abandono
quando fizer o meu luto escreverei passo por passo o que foram os dias desde que ma levaram, na terça-feira dia 6 de maio, aqui da aldeia onde moro
de volta ao meu cantinho alternativo, os degraus da laura
a ganhar espaço no coração agora que a minha maluquinha é uma luzinha invisível que me espera perto dos meus,
como me contou o zé antónio acerca da alma dos nossos animais de estimação
temos uma canção para ti, tita bonita
quarta-feira, julho 23, 2008
quinta-feira, junho 26, 2008
segunda-feira, junho 23, 2008
Noite de S.João: Danças e saltos ardentes
Queime no fogo as suas negatividades. Receba o orvalho
desta noite sacra; pela alba ou aurora ida às fontes
***
A grande luta moderna pela melhoria das sociedades
e a sobrevivência do planeta
é feita pela transformação individual e pela acção de pequenos grupos
que se desprendem das malhas consumistas e egoístas
e lucidamente iniciam o caminho verdadeiro da plena atenção,
simplicidade, partilha, amor e unidade.
in Borda d'Água
desta noite sacra; pela alba ou aurora ida às fontes
***
A grande luta moderna pela melhoria das sociedades
e a sobrevivência do planeta
é feita pela transformação individual e pela acção de pequenos grupos
que se desprendem das malhas consumistas e egoístas
e lucidamente iniciam o caminho verdadeiro da plena atenção,
simplicidade, partilha, amor e unidade.
in Borda d'Água
sexta-feira, maio 09, 2008
quarta-feira, abril 23, 2008
mes mains volent pour se rejoindre
Comme des colombes en désaccord mes mains volent entre les secrets
pour se rejoindre
dans la saison où les oiseaux chantent l'amour d'être entourés d'eux mêmes.
Natália Correia (56/57)
pour se rejoindre
dans la saison où les oiseaux chantent l'amour d'être entourés d'eux mêmes.
Natália Correia (56/57)
sábado, abril 19, 2008
domingo, dezembro 02, 2007
sábado, setembro 01, 2007
Parabéns, António, antes que anoiteça
Antes que anoiteça
Por razões que não vêm ao caso, as últimas semanas, difíceis para mim, têm-me obrigado a pensar no passado e no presente e a esquecer o futuro. Sobretudo o passado: tornei a encontrar o cheiro e o eco dos hospitais, essa atmosfera de feltro branco, onde as enfermeiras deslizam como cisnes, que nos tempos de interno me exaltava, o silêncio de borracha, brilhos metálicos, pessoas que falam baixinho como nas igrejas, a solidadriedade na tristeza das salas de espera, corredores intermináveis, o ritual de solenidade apavorante a que assisto com um sorriso trémulo a servir de bengala, uma coragem postiça a mal esconder o medo. Sobretudo no passado porque o futuro se estreita, e digo sobretudo o passado visto que o presente se tornou passado também, recordações que julgava perdidas e regressam sem que se dê por isso, os domingos de feira em Nelas, os gritos dos leitões
(lembro-me tanto dos gritos dos leitões agora)
um anel com o emblema do Benfica que aos cinco anos eu achava lindo e os meus pais horrível, que aos cinquenta anos continuo a achar lindo apesar de achar horrível também, e julgo ser altura de começar a usá-lo uma vez que não me sobra assim tanto tempo para grandes prazeres. Quero o anel com o emblema do Benfica, quero minha avó viva, quero a casa da Beira, tudo aquilo que deixei fugir e me faz falta, quero a Gija a coçar-me as costas antes de me deitar, quero o pinhal do Zé Rebelo, quero jogar pingue-pongue com o meu irmão João, quero ler Júlio Verne, quero ir à Feira Popular andar no carrocel do oito, quero ver o Costa Pereira defender um penalti do Didi, quero trouxas de ovos, quero pastéis de bacalhau com arroz de tomate, quero ir para a biblioteca do liceu excitar-me às escondidas com a «Ruiva» de Fialho de Almeida, quero tornar a apaixonar-me pela mulher do faraó nos «Dez Mandamentos» que vi aos doze anos e a quem fui intransigentemente fiel um verão inteiro, quero a minha mãe, quero o meu irmão Pedro pequeno, quero ir comprar papel de trinta e cinco linhas à mercearia para escrever versos contadas pelos dedos, quero voltar a jogar hóquei em patins, quero ser o mais alto da turma, quero abafar berlindes
olho de boi, olho de vaca, contramundo e papa
quero o Frias a contar filmes na escola do senhor André, a falar do Rapaz, da Rapariga e do Amigo do Rapaz, filmes que nunca vi a não ser através das descrições do Frias
(Manuel Maria Camarate Frias o que é feito de ti?)
e as descrições do Frias eram muito melhores do que os filmes, o Frias imitava a música de fundo, o barulho dos cavalos, os tiros, a pancadaria no «saloon», imitava de tal forma que a gente era com se estivesse a ver, o Frias, o Norberto Noroeste Cavaleiro, o homem que achou que eu lhe estava a mexer no automóvel e se desfez num berro
--Trata-me por senhor doutor meu camelo
a primeira vez que uma pessoa crescida me chamou nomes e eu com vontade de responder que o meu pai também era doutor, que ao entrar no balneário do Futebol Benfica para me equipar o Ferro-o-Bico explicou aos outros
-- O pai do ruço é doutor
e houve à minha roda uma nudez respeitosa, o pai do ruço é doutor, quero voltar a apanhar um táxi à porta de casa e o chofer perguntar
-- É aqui que mora um rapaz que joga hóquei chamado João?
e quero tornar a espantar-me por ele tratar assim o pai do ruço, quero partir um braço e ter gesso no braço ou, melhor ainda, uma perna para andar de canadianas e assombrar as meninas da minha idade, um miúdo de canadianas
achava eu, acho eu
não há rapariga que não deseje namorar com ele e além disso os carros param para a gente atravessar a rua, quero que o meu avô me desenhe um cavalo, eu monte no cavalo e me vá embora daqui, quero dar pulos na cama, quero comer percebes, quero fumar às escondidas, quero ler o «Mundo de Aventuras», quero ser Cisco Kid e Mozart ao mesmo tempo, quero gelados do Santini, quero uma lanterna de pilhas no Natal, quero guarda-chuvas de chocolate, quero que a minha tia Gogó me dê de almoçar
-- Abre a boca Toino
quero um pratinho de tremoços, quero ser Sandokan Soberano da Malásia, quero usar calças compridas, quero descer dos eléctricos em andamento, quero ser revisor da Carris, quero tocar todas as cornetas de plástico do mundo, quero uma caixa de sapatos cheia de bichos de seda, quero o boneco da bola, quero que não haja hospitais, quero que não haja doentes, quero que não haja operações, quero ter tempo para ganhar coragem e dizer aos meus pais que gosto muito deles
( não sei se consigo)
dizer aos meus pais que gosto muito deles antes que anoiteça senhores, antes que anoiteça para sempre.
António Lobo Antunes
in Crónicas do Público (1996)
Por razões que não vêm ao caso, as últimas semanas, difíceis para mim, têm-me obrigado a pensar no passado e no presente e a esquecer o futuro. Sobretudo o passado: tornei a encontrar o cheiro e o eco dos hospitais, essa atmosfera de feltro branco, onde as enfermeiras deslizam como cisnes, que nos tempos de interno me exaltava, o silêncio de borracha, brilhos metálicos, pessoas que falam baixinho como nas igrejas, a solidadriedade na tristeza das salas de espera, corredores intermináveis, o ritual de solenidade apavorante a que assisto com um sorriso trémulo a servir de bengala, uma coragem postiça a mal esconder o medo. Sobretudo no passado porque o futuro se estreita, e digo sobretudo o passado visto que o presente se tornou passado também, recordações que julgava perdidas e regressam sem que se dê por isso, os domingos de feira em Nelas, os gritos dos leitões
(lembro-me tanto dos gritos dos leitões agora)
um anel com o emblema do Benfica que aos cinco anos eu achava lindo e os meus pais horrível, que aos cinquenta anos continuo a achar lindo apesar de achar horrível também, e julgo ser altura de começar a usá-lo uma vez que não me sobra assim tanto tempo para grandes prazeres. Quero o anel com o emblema do Benfica, quero minha avó viva, quero a casa da Beira, tudo aquilo que deixei fugir e me faz falta, quero a Gija a coçar-me as costas antes de me deitar, quero o pinhal do Zé Rebelo, quero jogar pingue-pongue com o meu irmão João, quero ler Júlio Verne, quero ir à Feira Popular andar no carrocel do oito, quero ver o Costa Pereira defender um penalti do Didi, quero trouxas de ovos, quero pastéis de bacalhau com arroz de tomate, quero ir para a biblioteca do liceu excitar-me às escondidas com a «Ruiva» de Fialho de Almeida, quero tornar a apaixonar-me pela mulher do faraó nos «Dez Mandamentos» que vi aos doze anos e a quem fui intransigentemente fiel um verão inteiro, quero a minha mãe, quero o meu irmão Pedro pequeno, quero ir comprar papel de trinta e cinco linhas à mercearia para escrever versos contadas pelos dedos, quero voltar a jogar hóquei em patins, quero ser o mais alto da turma, quero abafar berlindes
olho de boi, olho de vaca, contramundo e papa
quero o Frias a contar filmes na escola do senhor André, a falar do Rapaz, da Rapariga e do Amigo do Rapaz, filmes que nunca vi a não ser através das descrições do Frias
(Manuel Maria Camarate Frias o que é feito de ti?)
e as descrições do Frias eram muito melhores do que os filmes, o Frias imitava a música de fundo, o barulho dos cavalos, os tiros, a pancadaria no «saloon», imitava de tal forma que a gente era com se estivesse a ver, o Frias, o Norberto Noroeste Cavaleiro, o homem que achou que eu lhe estava a mexer no automóvel e se desfez num berro
--Trata-me por senhor doutor meu camelo
a primeira vez que uma pessoa crescida me chamou nomes e eu com vontade de responder que o meu pai também era doutor, que ao entrar no balneário do Futebol Benfica para me equipar o Ferro-o-Bico explicou aos outros
-- O pai do ruço é doutor
e houve à minha roda uma nudez respeitosa, o pai do ruço é doutor, quero voltar a apanhar um táxi à porta de casa e o chofer perguntar
-- É aqui que mora um rapaz que joga hóquei chamado João?
e quero tornar a espantar-me por ele tratar assim o pai do ruço, quero partir um braço e ter gesso no braço ou, melhor ainda, uma perna para andar de canadianas e assombrar as meninas da minha idade, um miúdo de canadianas
achava eu, acho eu
não há rapariga que não deseje namorar com ele e além disso os carros param para a gente atravessar a rua, quero que o meu avô me desenhe um cavalo, eu monte no cavalo e me vá embora daqui, quero dar pulos na cama, quero comer percebes, quero fumar às escondidas, quero ler o «Mundo de Aventuras», quero ser Cisco Kid e Mozart ao mesmo tempo, quero gelados do Santini, quero uma lanterna de pilhas no Natal, quero guarda-chuvas de chocolate, quero que a minha tia Gogó me dê de almoçar
-- Abre a boca Toino
quero um pratinho de tremoços, quero ser Sandokan Soberano da Malásia, quero usar calças compridas, quero descer dos eléctricos em andamento, quero ser revisor da Carris, quero tocar todas as cornetas de plástico do mundo, quero uma caixa de sapatos cheia de bichos de seda, quero o boneco da bola, quero que não haja hospitais, quero que não haja doentes, quero que não haja operações, quero ter tempo para ganhar coragem e dizer aos meus pais que gosto muito deles
( não sei se consigo)
dizer aos meus pais que gosto muito deles antes que anoiteça senhores, antes que anoiteça para sempre.
António Lobo Antunes
in Crónicas do Público (1996)
quinta-feira, agosto 09, 2007
dia felino
fio de trovoadas incandescentes
na lã do trigo
beijando os pés de algodão
neste tremor embalante
do âmago.
mar de cerejas penduradas
num calmo torpor nu
de caracóis dourados nos dedos.
num êxtase de dois lagos profundos, sonho
na vertigem colorida da descolagem
dia felino, dia azul de princípio de mundo
explosão de nascer de sol posto sob o corpo
de um deus renascido da seiva
fervendo nas veias de uma árvore escondida
da cidade tumefacta.
Redescobrir constante
do brando e cru chamamento da mãe Terra
na forma de uma carícia
transparentemente nascida na boca,
sentida nos dedos,
amada nos cabelos da constelação
que tu és
e ninguém sabe.
:)
na lã do trigo
beijando os pés de algodão
neste tremor embalante
do âmago.
mar de cerejas penduradas
num calmo torpor nu
de caracóis dourados nos dedos.
num êxtase de dois lagos profundos, sonho
na vertigem colorida da descolagem
dia felino, dia azul de princípio de mundo
explosão de nascer de sol posto sob o corpo
de um deus renascido da seiva
fervendo nas veias de uma árvore escondida
da cidade tumefacta.
Redescobrir constante
do brando e cru chamamento da mãe Terra
na forma de uma carícia
transparentemente nascida na boca,
sentida nos dedos,
amada nos cabelos da constelação
que tu és
e ninguém sabe.
:)
quarta-feira, julho 04, 2007
foi a teu lado que me deitei pela
primeira vez num prado, lembras-te?
foi a teu lado que olhei por várias
vezes o céu enorme e estrelado e me
senti acompanhado.
foi a teu lado que chorei e ri, e quando
me perdi me mandaste tomar um duche
de água fria (por causa da Natureza...)
foi a teu lado que parti vidros e
gritei e depois adormeci sem saber como, encantado.
foi a teu lado, ao teu lado, em teu lado
que cresci e aprendi também a ser assim,
- pirilampo -
aquele que pelo escuro se vai iluminando.
p.p.
primeira vez num prado, lembras-te?
foi a teu lado que olhei por várias
vezes o céu enorme e estrelado e me
senti acompanhado.
foi a teu lado que chorei e ri, e quando
me perdi me mandaste tomar um duche
de água fria (por causa da Natureza...)
foi a teu lado que parti vidros e
gritei e depois adormeci sem saber como, encantado.
foi a teu lado, ao teu lado, em teu lado
que cresci e aprendi também a ser assim,
- pirilampo -
aquele que pelo escuro se vai iluminando.
p.p.
segunda-feira, julho 02, 2007
quinta-feira, junho 14, 2007
domingo, maio 20, 2007
terça-feira, maio 15, 2007
o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
ze luis peixoto
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
ze luis peixoto
segunda-feira, abril 23, 2007
Como se Portugal inteiro em mim coubesse
Vieram com Lutero os vendilhões do Templo, - e o Sol se cobriu;
Vieram com os Césares os fumos de mandar, - e o Sol se cobriu;
Vieram com Trento os autos de fé, - e o Sol se cobriu;
e nunca mais Portugal foi luz.
Porque, porém, dobrou o joelho, - eis aí a pergunta;
Porque, tão fácil, entregou o guerreiro a sua espada, - eis aí a pergunta;
Porque, tão fácil, renunciou o monge à sua alma, - eis aí a pergunta;
a pergunta que, sem resposta, fez da Nação um luto.
Inês o sabe e não perdoa, - que por ela pecaram portugueses;
Fernando o sabe e não perdoa, - que por ele pecaram portugueses;
África o sabe e não perdoa, - que por ela pecaram portugueses;
curva o remorso as frontes, abate a pena as mentes.
Só pagará a dívida o que em mim for frade, - num só claustro, o mundo;
Só pagará a dívida o que em mim for braço, - de meu irmão ajuda;
Só pagará a dívida o que em mim for nada, - perante um Deus que é tudo;
como se Portugal inteiro em mim coubesse.
in uns poemas de Agostinho ulmeiro
Vieram com os Césares os fumos de mandar, - e o Sol se cobriu;
Vieram com Trento os autos de fé, - e o Sol se cobriu;
e nunca mais Portugal foi luz.
Porque, porém, dobrou o joelho, - eis aí a pergunta;
Porque, tão fácil, entregou o guerreiro a sua espada, - eis aí a pergunta;
Porque, tão fácil, renunciou o monge à sua alma, - eis aí a pergunta;
a pergunta que, sem resposta, fez da Nação um luto.
Inês o sabe e não perdoa, - que por ela pecaram portugueses;
Fernando o sabe e não perdoa, - que por ele pecaram portugueses;
África o sabe e não perdoa, - que por ela pecaram portugueses;
curva o remorso as frontes, abate a pena as mentes.
Só pagará a dívida o que em mim for frade, - num só claustro, o mundo;
Só pagará a dívida o que em mim for braço, - de meu irmão ajuda;
Só pagará a dívida o que em mim for nada, - perante um Deus que é tudo;
como se Portugal inteiro em mim coubesse.
in uns poemas de Agostinho ulmeiro
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