terça-feira, fevereiro 22, 2005

miragem

Era uma vez uma pétala
ou um mar
ou nada
O princípio, queria dizer
O princípio

Era uma vez um calor que transbordou

Ilha, pedra, canto
e um rio em flor dentro de casa
Um dia de azul              miragem

Era uma vez
era uma
depois mil
         de uma vez

domingo, fevereiro 20, 2005

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

domingo, fevereiro 13, 2005

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

a princesinha branca


voltou ontem para a sua casa de adopção
depois de uma temporada aqui ao pé da mãe e dos irmãos
vou ficar atenta
;)

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

terça-feira, fevereiro 01, 2005

segunda-feira, janeiro 31, 2005

tu

eu sei que
tu         é uma palavra
difícil de dizer
nos olhos


sexta-feira, janeiro 28, 2005

o gato

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa
só como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de uma nave.

excerto de ode ao gato, de neruda

terça-feira, janeiro 25, 2005

o amor mais fundo

este é o amor mais fundo
porque a boca dela
repousa e fica doida
na boca dele
porque se abrem uma na outra
e querem morrer assim
uma na outra

abril94

domingo, janeiro 23, 2005

à memória da Bia, a gata de olhos de âmbar


Somente o traço que ficou no céu
importa agora
e se foi de alegria
em cada hora
e de busca de encontro e companhia
o quererá no céu sulcar também
com renovada asa
qualquer homem por vir
as nuvens tendo por casa
as estrelas por lanterna
e em cada breve momento
a vida eterna.


Agostinho da Silva
(poema para um pássaro morto)

quinta-feira, janeiro 20, 2005

faz parte...

ontem à tarde deixei a porta da cozinha entreaberta enquanto os meus pequenos gatos andavam na passeata do costume pelo quintal e arredores...

mais tarde dei-me conta de que tinha havido uma visita inesperada, quando me subiu ao nariz o inconfundível aroma de marcação de território de macho adulto
DENTRO DA COZINHA!! :/

andei a cheirar os cantos e as esquinas (riam-se, riam-se! :]
e percebi onde é que o diabo do gato visitante andou a fazer as suas aspergidelas

nem mais nem menos que DENTRO dos armários dos tachos e das loiças e tupperwares!!

tenho um belo trabalhinho para esta tarde...
fiquem bem
:)

quarta-feira, janeiro 19, 2005

terça-feira, janeiro 18, 2005

Ela e só ela

Sabes o que ele me disse? Que aquilo é como a primeira namorada. Adormeces a pensar nela e acordas a pensar nela.
Eu já sabia, já te tinha dito, lembras-te?, eu já sabia mas não queria ter a certeza.
Foi assim. Telefonei ontem à hora do almoço lá para casa e a mãe, devia ser a mãe, era a mãe com certeza, disse-me que ele ainda estava a dormir. Há uma data de dias que não o via, não podia mais. Peguei no carro e fui lá.
Quando cheguei, estava a tomar duche e tive de esperar um bocadinho no quarto dele. Ao lado da cama havia um monte de revistas e álbuns de banda desenhada. Na parede um poster a preto e branco do Ian Curtis aos saltos. Sabes, o dos Joy Division que morreu? No chão, a roupa da noite. Entrou tão silenciosamente que, com o susto, gritei. Estava lindo, tão lindo dentro do roupão azul escuro. Nem imaginas como ele é lindo.
Foi tomar o pequeno almoço na cozinha com a mãe e depois disse-me para voltar com ele lá para cima. Fechou a porta atrás de nós mas não a fechou à chave, mas eu pensei de qualquer modo que ele me ia agarrar, beijar, deitar. Eu ainda só dormi com ele duas vezes, mas devia ser proibido fazer amor assim. Agarrou-me por dentro, sabes? Devia ser proibido. Uma pessoa não pode fazer nada.
Mas ele não me agarrou. Tomou um ar sério e disse-me para não ter medo e depois sorriu. Então começou a preparar aquilo. Eu não estava assustada mas fiquei muda todo o tempo. Passavam-me coisas tão depressa pela cabeça que eu não conseguia pensar em nada. Não conseguia tirar os olhos daquilo. Depois arrumou tudo e pôs um disco, como se nada fosse. Eu fiz de conta. Passado um bocadinho chegou um amigo dele, o Tó. Beberam uma cerveja e depois o Tó foi-se embora. Ele voltou a fechar a porta e voltou a preparar aquilo e a fumar aquilo. Para atestar, disse, percebes? Eu não lhe disse nada. Ele gostava mais daquilo do que de mim. Muito mais, tive a certeza. Apeteceu-me chorar mas não chorei. Olhei o Ian Curtis que continuava no seu salto e fiz como se tudo aquilo me fosse indiferente. Uma pessoa consegue.
Mas eu sei muito bem, eu é que lhe sou indiferente. Eu e o resto. Menos aquilo. O que aquilo faz é tornar tudo o resto indiferente, sabes? O verdadeiro inferno. Não me agarrou. Eu é que tive de o agarrar. Parecia um bebé a sorrir. E eu gosto tanto dele, merda. Despi-o e fiz-lhe amor e foi então, logo a seguir, que ele me disse: "Sabes, aquilo é como a primeira namorada. Adormeces a pensar nela e acordas a pensar nela."

Pedro Paixão
Viver todos os dias cansa, 95

segunda-feira, janeiro 17, 2005

O António no hospital

Eu brincava com os dedos grandes dos pés dele, por debaixo dos lençóis todos brancos, enquanto ele dizia disparates, só disparates.

- Por ti deixava de roer as unhas e pintava-as de amarelo. Por ti sacrificava a minha pomba favorita. Tornava concretas todas as minhas ânsias. Por ti fazia tudo, menos que de mim fizesses outro.

Entretanto a fama da sua beleza percorria os corredores assépticos. Insistia em que lhe lavassem o cabelo, a ele que já nem sequer andar sabia. Por vezes duas facas espetavam-se-lhe nas costas e fazia uma careta que logo desfazia.

Eu continuava a brincar com os dedos grandes dos pés dele. Ele era como o mel e ninguém sabia porquê. Eu sim. Eu era a abelha subindo no ar que iria com ele até ao fim de tudo.


Pedro Paixão
Histórias verdadeiras,94

sábado, janeiro 15, 2005

terça-feira, janeiro 11, 2005

segunda-feira, janeiro 10, 2005

o cerco

essa tua boca em que eu me perco
é o meu cerco
é o meu aperto
e eu não sei ao certo
se te quero perto
se te quero longe para sempre

sexta-feira, janeiro 07, 2005

puma


só o gato
apareceu completo
e orgulhoso
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer


excerto da Ode ao gato, de Neruda

quinta-feira, janeiro 06, 2005

quarta-feira, janeiro 05, 2005

canção para ti (1980)

anoiteceu, meu amor
o dia desceu no mar
escrevo o teu nome na areia
o tempo parou por instantes
vagueavas sozinho na praia
juntei-me a ti, mergulhei no teu silêncio mágico
lentamente

anoiteceu, meu amor, pressinto-te perto
corro descalça por ti, a lua poisou-te nos olhos
e soltei os cavalos do vento, demos as mãos
caminhámos num abraço eterno
tão ao longe

encontrei-te no mar, percorri-te de cor
nos teus braços de amor adormeci
embarquei no milagre que há em ti
perdi-me contigo no silêncio do cais...

amanheceu, meu amor
por dentro nasceu o sol
sobes por mim devagar, procuras o céu no meu corpo
num sorriso os teus olhos encontram nos meus
mais uma estrela que se acendeu
em ti deslizo mansamente


l.a.1980

terça-feira, janeiro 04, 2005

Helena, por quem os gregos se bateram

A Helena veio ontem visitar-nos. Telefonou do carro a dizer que vinha a caminho e trouxe o namorado. A Helena que eu não via há muito tempo por preguiça, medo, coisas árduas de lembrar, mal chegou tirou os sapatos e colocou-se em várias posições sobre os sofás da sala enquanto tocava nos assuntos mais diversos.
"A vida é uma coisa muito bonita que se estraga facilmente, tu não achas? Tens visto o nosso amigo João Luís?"
O João Luís há três anos que está fechado em casa, os estores corridos para não saber se é noite ou se é dia. Desde que caiu no patamar das escadas e partiu a mão nunca mais tocou um instrumento. Acredita que no céu vai poder mostrar todas as suas potencialidades. Deus queira.
"Tudo acabou como não devia. Foram sete anos só a viver para aquilo. Foi bom o tempo que dura uma nova paixão, uns seis meses. Depois é um inferno que tu não queres largar nem por nada. Quando entrei na clínica ia a ressacar, era a única, os outros tinham todos tomado a dose da manhã. Hás de me escrever uma canção, que eu quero subir ao palco outra vez. Ouviste?"
E pergunta-me pelo meu irmão Emmanuel que explodiu em casa depois de sete anos a tomar má heroína em vários estabelecimentos prisionais espalhados pelo país. Eu lembro-lhe de há muitos anos ela não me querer senão para chofer e, quando muito, amante ocasional.
"Sobreviver ao sucesso foi mais difícil do que tudo. De resto faço Chi Kung três vezes por semana como uma imperatriz da china imperial. Tu também não estás com mau aspecto. Não tomo comprimidos, detesto todos os químicos e nem quero microondas em casa."
A bela Helena, por quem os gregos se bateram, trazia o cabelo curto, os olhos cansados de ver coisas muito duras de se ver e tinha engordado alguns quilinhos espalhados pelo corpo. O que fazer quando deus nos deu um só talento assim tão grande e não se pode trabalhar?
Não sei o que vai acontecer. Por vezes penso que é bom poder voltar mais uma vez à superfície desta terra e adormeço tão suavemente que nem me dou conta de que partiram.


Pedro Paixão
Nos teus braços morreríamos, 98

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Ode à Paz


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!


Natália Correia, 1989

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Parabéns, minha Princesa!




minha estrela, minha âncora, meu sol, minha vida, minha chata, minha adorada criatura de Deus, eu amo-te muito
sempre :)

quinta-feira, dezembro 30, 2004

o eco do tempo

sentei-me nas pedras
no meio das oliveiras
a ouvir o eco do tempo

ao longe na serra
uma voz clara e transparente cantava
uma música triste

e lembrei-me dos dias
em que a terra cheirava a hortelã
e o vento a maresia

segunda-feira, dezembro 27, 2004

pulsar

descalcei-me na noite
para sentir o pulsar da terra
fechei os olhos devagar
e acordei
do outro lado do espelho

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Sol da Noite

Peregrinos da Estrela Flamejante!
amável é o Sol da Noite
que ilumina o caminho
para o Castelo das Almas.

Natália Correia

quinta-feira, dezembro 23, 2004

Ó véspera do prodígio!

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.


Natália Correia
Sonetos Românticos

quarta-feira, dezembro 22, 2004

e a casa redonda

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um desenho da Sara
com o sol
e muitas pessoas e a casa redonda

1980

terça-feira, dezembro 21, 2004

o teu coração é o meu coração

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Mãezinha, o teu coração
É o meu coração,
o teu no meu fica apertadinho
Dou-te este cartão com amor e
carinho.
Sara

19 Maio 1985


segunda-feira, dezembro 20, 2004

jardim da sombra

toca-me de mansinho
e leva-me pela mão
ao jardim onde embarcámos um dia
no silêncio da chuva

percorre-me na sombra
e sê comigo
num momento eterno de sorriso

morango

brilhas cá dentro de mim
e eu sinto o teu calor
abraças-me, somos um
e nos teus braços de amor
abandono-me sem ver
que os teus olhos são azuis
e a tua boca o morango
que me apetece comer

sábado, dezembro 18, 2004

flores amarelas

trocámos duas flores amarelas
e seguimos lado a lado
com um certo calor no corpo
e frio no rosto
da tarde

trocámos flores amarelas
e um certo calor de mãos
domingo
na praça

quarta-feira, dezembro 15, 2004

não me acordes

eu queria dormir acompanhada
daquele amor mais terno e mais sereno
daquele amor sem pingo do veneno
que de ciúme nos traz a vida envenenada

eu queria dormir profundamente
abraçada contigo docemente
como naquela primeira madrugada

oh meu amor, onde andas tu que não te sei
adormecido talvez num outro ombro
tão longe que me deixas tão sozinha
amor, vem ter comigo, a vida é breve
(eu não me esqueço, amor que não se escreve)

e se sonhar contigo for a única maneira
de te trazer para ao pé de mim a noite inteira
então dorme, querido
e não me acordes

porque hoje a noite é minha
não me acordes

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Natal

Pim.
Som de cacos verdes. Transparentes.
Sinos de estrelas no ar.
como gaivotas na doca

Gestação. Nascer. Estar.
Amo-te.
Gémeos nascemos. Mas separados.
Beijos de encontro. Enfim, sós!

Natal. Corações quentes.
Solitários.
Sabes, eu gosto de ti.
Vamos ver as luzes.
Vamos para a chuva.

Dezembro, 1972 :)

quinta-feira, dezembro 09, 2004

do lado de cá

depois saí para a chuva
sozinha e improvisada
corri perdida de amor
no corpo          nos olhos
na noite esquecida do betão
e de mim

desvaneço agora o sorriso e as lágrimas
sou folha no vento, as mãos abandonadas
do lado de cá da vida

sexta-feira, dezembro 03, 2004

terça-feira, novembro 30, 2004

sábado, novembro 27, 2004

o corpo da terra

nos momentos em que o meu corpo é
o corpo da terra
eu queria fazer amor contigo
num fluir universal de raízes

quinta-feira, novembro 18, 2004

à flor da água

páro um instante
enquanto a lua sobe
e a noite cresce lenta e segura

páro um instante
e invento o teu perfil
à flor da água nua e murmurante


quarta-feira, novembro 17, 2004

menino perdido

por onde andas tu, menino perdido
por onde andas tu e a tua sombra
a que horas me cruzei contigo na vida?
a que horas te encontras aonde?
demoras tanto tempo a vir
menino pedaço de abismo...
quem terá a sorte do teu calor
quem terá a sorte da tua boca
eu sei lá o que te importa!

sabes que te quero, eu sei que sabes
e mesmo que não venhas nunca mais
não fecho a porta

segunda-feira, novembro 15, 2004

até sempre

um dia
o azul de espuma
na pele

rebuscar de origens
até ti
até ao fogo
até sempre

quarta-feira, novembro 10, 2004

da noite

murmuras segredos da noite nos olhos
e no toque te sorrio
à procura, sempre
de um banco de areia morna no teu corpo
para deitar o meu cansaço
a pouco e pouco

murmuras segredos da noite nos olhos
e no toque te sorrio
à procura, sempre
do outro lado de mim

além de nós só os pássaros
e o mar                  ao longe
atormentado

segunda-feira, novembro 08, 2004

e eu não sabia

possível como vento foste tu
e eu não sabia

que são fogo teus inventos
tua ausência
teus momentos controlados

sexta-feira, novembro 05, 2004

viajar viajar viajar


De vez em quando, assim de repente, tenho saudades,
de ver coisas pelos teus olhos. A estrada, um quarto
de hotel numa vila de província, estrelas numa noite
muito escura. Penso no teu nariz, do qual gosto muito
e não sei onde estará. Em grande parte o nosso des-
tino não somos nós que o fazemos; em grande parte.
Apesar da angústia e da ansiedade, gostava muito de
viajar contigo. É bom viajar contigo. É preciso continuar
a aprender a viajar viajar viajar viajar viajar.
o teu pedro

quarta-feira, novembro 03, 2004

Matisse revisitado



In his final years, Matisse focused on a technique using paper cut-outs. The artist died on November 3, 1954, in Nice.

terça-feira, novembro 02, 2004

adormecer

agora
só me resta ir ter contigo
para adormecer em ti
e assim esquecer
este meu sono das horas

segunda-feira, novembro 01, 2004

quarta-feira, outubro 20, 2004

terça-feira, outubro 12, 2004

como vento

suportar a vigília com duas rugas em vez de olhos
levitar pelas calçadas adormecidas
durante as noites que faltam
rangendo musicalmente com um cárcere na memória
e um mar salgado na garganta

quereria abraçar uma viola e torcê-la
para que pingasse um choro furioso
como vento

sábado, outubro 09, 2004

terça-feira, outubro 05, 2004

argila

teu corpo argila minha falta
que de nós apenas a ausência
do sopro o pálido gesto
no rio a lívida certeza
que de nós apenas a lembrança

quinta-feira, setembro 30, 2004

sábado, setembro 25, 2004

não me acordes

eu queria dormir acompanhada
daquele amor mais terno e mais sereno
daquele amor sem pingo do veneno
que de ciúme nos traz a vida envenenada

eu queria dormir profundamente
abraçada contigo docemente
como naquela primeira madrugada

oh meu amor, onde andas tu que não te sei
adormecido talvez num outro ombro
tão longe que me deixas tão sozinha
amor, vem ter comigo, a vida é breve
(eu não me esqueço, amor que não se escreve)

e se sonhar contigo for a única maneira
de te trazer para ao pé de mim a noite inteira
então dorme, querido
e não me acordes

porque hoje a noite é minha
não me acordes

quarta-feira, setembro 22, 2004

tudo cá dentro

Olha, quero ir. Quero tudo. Sinto-me escorregar
pela borda da cama, cair até ao fundo do mar,
afogar-me na espuma sádica da lembrança
de uma quinta feira queimada num cigarro
e num copo de Porto. E num corpo de mármore
tremendo no frio, gemendo no calor. Morto, enfim.
Não, não penses que me esqueci. Nadavas. Mentira,
era eu que nadava. Por entre as algas e a nafta
e os peixes mortos boiando na espuma amarela
daquele mar civilizado.

Sem mais nada para escrever, tudo cá dentro.

sexta-feira, setembro 17, 2004

ainda ontem...

Há quanto tempo! Cantámos. Fizemos amor. Os dois. Os vinte.
Tu amas-me? Não, não quero mais vinho. Beijei-te. Eu lembro
-me. Tinhas medo?. Eu tive. Quando o chui chamou o meu nome
e o rádio explodiu. Depois deixaram-nos passar.
E os degraus ainda estão lá, cheios de pó e de pontas de
cigarros afogadas em leite.
Escuta... bate. O meu coração rebentou como uma granada.
Fiquei presa pelos cabelos. E tu dormias. Nu.

Que sede esta me estrangula os olhos e me tira
a serenidade que plantaste em mim, ainda ontem...

quarta-feira, setembro 15, 2004

tu sabes

corri pelo mar dentro e estavas lá
no infinito tocável como a música que respiro
tu sabes

vivo contigo
neste quarto escuro
que é a minha vida a sós

sofres-me cá dentro, de vez em quando

sexta-feira, setembro 03, 2004

No quarto da Teresa

Obsessão: as rosas são verdes. Levanta os braços.
Cospe. Musgo negro que pintas o mar. Solavancos
e flores. Morte e café. São horas. A camioneta é
às sete. Podemos entrar? Acendo a luz. Tens um
belo corpo. E visto-me. Querendo agarrar-me aos segundos.
Teu cabelo, teus olhos, tua luva de sal e vodka. Fumo.
Vejo. Mãos mortas, no calor flutuante do quarto da
Teresa. Choras e gemes. Beijo-te. Sorris. Tens medo.
Para quebrar as portas são precisos punhos fortes.
Obsessão: o tempo parou. Falas no sonho.
Queres falar, mas não sabes. Soltas grunhidos
frustrados, lentos demais.