domingo, julho 03, 2005

sexta-feira, julho 01, 2005

terça-feira, junho 28, 2005

paixão :)

tua

queria ficar no teu colo
e beijar-te até perder o sentido de mim
fazer-te todo o amor
só num abraço
e ir-me despindo toda
ficar nua para ti
e ser aquilo que eu gosto de ser
fiel e pura

agora sou tua

sexta-feira, junho 24, 2005

novidades da minha família felina

quem manda mais - a mini mãe, pritinha de seu nome (peso: 2,800Kg) , e dorme na sala

quem manda a seguir - rosinha o gatão apaixonado (peso: cerca de 5Kg) , e dorme na cozinha

quem teve que se sujeitar à dominância do regressado - o china maravilha, siamês da minha vida (peso: 4,100Kg) , e dorme na sala

quem foge a sete patas e apanha sustos de morte com o cabeçudo apaixonado ;D - a branquinha linda (peso: 3,4ooKg), e dorme no escritório

quem assiste de longe e não se mete, a minha doce puma (peso: 3,200Kg), e dorme na minha cama

bom fim de semana! :)

terça-feira, junho 21, 2005

ao solstício de verão

Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que
Deus até fica zangadovendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

Ao Nosso Senhor
Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor
Criado pra adorar o Criador

E se o Criador
Inventou a criatura por favor
Se do barro fez alguém com tanto amor
Para amar Nosso Senhor

Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador

Ou será que o deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus
Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

segunda-feira, junho 20, 2005

domingo, junho 19, 2005

Parabéns, poema



Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo
da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei,
como encantado
Ao lado teu...

quinta-feira, junho 16, 2005

branquinha à espreita na nespereira maior

Image Hosted by ImageShack.us
(tirada ontem à tarde)
logo que os ânimos acalmem por aqui fotografo o rosinha,
que ainda está em estado de choque
:D

quarta-feira, junho 15, 2005

adivinha quem já voltou?!



aqui ainda criança, o meu rosinha querido :)

segunda-feira, junho 06, 2005

a puma voltou a casa

estava ali à porta da cozinha, perto daquele degrau que se vê na foto ao lado, hoje de manhã

ficou internada na clínica do meu amigo

depois eu conto


um beijo a todos, fiquem com a música


até quarta feira

quinta-feira, junho 02, 2005

Speed of Sound, Coldplay



All those signs
I knew what they meant
Some things you can't invent
Some get made and some get sent
Oooh

And let's going flying at the speed of sound
To show you how it all began
Let's keep flying from the underground
If you could see it then you'd understand
Oh when you see it then you'll understand

quarta-feira, junho 01, 2005

gatinha mãe a recuperar no quintal


logo vamos ao vet, a ver como estão as coisas

domingo, maio 22, 2005

BENFICA, és GRANDE


Benfica Campeão 2004/2005

>:)

Visão: Ainda sonha com a guerra?
António Lobo Antunes: Às vezes tenho um pesadelo tremendo. Sonho que me estão a chamar para voltar para África. Tento explicar que já fui, argumentam que tenho que ir. E o sonho acaba aqui. Nunca sonhei com tiros ou com morteiradas. No meio daquilo tudo havia muito humor. Havia um homem, o Bichezas, que cuidava do morteiro que estava ao pé da messe. Tínhamos mais medo dele do que do MPLA porque o Bichezas disparava com o morteiro na vertical. Aquilo subia... e toda a gente fugia. Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo, havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.

V: Parava a guerra?
ALA: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?

V: Não vou pôr isso na entrevista...
ALA: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?

Excerto da entrevista “António Lobo Antunes íntimo”, in Visão 560

quarta-feira, maio 18, 2005

poesia de pessoa

para ser grande, sê inteiro
nada teu exagera ou exclui
sê todo em cada coisa
põe quanto és no mínimo que fazes
assim em cada lago a lua toda brilha
porque alta vive

segunda-feira, maio 16, 2005

acasos da amizade

ontem pela hora do jantar comentei que o meu amigo em macau fazia hoje anos e que não me podia esquecer de lhe mandar um sms a dar-lhe os parabéns :)
(eu não tinha a certeza se era a 16 ou a 12, mas valia na mesma...)

hoje ao fim da manhã recebi uma chamada no telemóvel, dizia assim mesmo chamada (era de longe...)

e era o meu amigo a dar-me os parabéns!!! :D

nem eu nem ele fazemos hoje anos, mas não sei por que vias achámos os dois que sim! :D




ps: a minha gatita tá a recuperar bem :)
ontem ao cheiro do frango assado (não o do ricardo... =) ia saltando do sofá para o chão, não fosse termos dado conta a tempo!
ela sempre adorou frango assado e bacalhau... >;)

sábado, maio 07, 2005

porque o amor não depende

nunca serás tu
ou tu
foste         talvez sempre         Tu
ainda agora

e aqui         no tempo sem tempo
a força é amor e eu sei
que o Amor Absoluto não depende
nem do tempo         nem do espaço
porque o amor não depende
o amor É
ou não é


domingo, maio 01, 2005

memórias de 74

o primeiro de maio é vermelho!

nem mais um só soldado prás colónias!

pão, paz, terra, liberdade, democracia, independência nacional!
...

sábado, abril 30, 2005

gémeos


enquanto o meu diabo preguiça o meu anjo desespera...

quarta-feira, abril 27, 2005

segunda-feira, abril 25, 2005

e eu estive lá!


25 de Abril

Esta é a madrugada
que eu esperava
o dia inicial
inteiro
e limpo
onde emergimos
da noite e do silêncio
e livres
habitamos
a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, abril 21, 2005

a merlita bebé caída do ninho

encontrei-a na posse do meu querido gato, à porta da cozinha, ela de bico aberto com ar de defesa (deve ter confundido o caçador com a mãe ;)
e ele com um ar meio espantado, que um bicho daquele tamanho nunca lhe tinha caído assim do céu... ;D
apesar do susto (o meu e o dela), perdeu apenas umas penas, passou a noite cá em casa (ao abrigo das minhas belas feras), comeu uma óptima papinha de insectos e minhocas que fomos buscar à loja dos animais ali na estrada de benfica a seguir ao chafariz, e levei-a hoje ao fim da manhã para o centro de recuperação de aves do parque florestal de monsanto, onde sei que ficou em boas mãos

fiquei contente, salvei uma bebé melro!

quarta-feira, abril 13, 2005

o corpo da terra

nos momentos em que o meu corpo é
o corpo da terra
eu queria fazer amor contigo
num fluir universal de raízes

terça-feira, abril 12, 2005

falta

sei desta dor como água salgada
porque me sofres cá dentro de vez em quando
porque em mim apenas Te pressinto

montes e vales à procura do país que soube um dia

porque me esqueci de Mim
Te espero

na nostalgia de um toque imenso e todo

sexta-feira, abril 01, 2005

quase sem querer

senti a tua boca quase sem querer
e apeteceu-me uma colina
um chão
perfume da terra                                perfume de ti

mãos vales rios
à procura
nos olhos de uma noite qualquer
quente
sem remorsos

domingo, março 27, 2005

Páscoa

foi no domingo de Páscoa de 1975, por volta do meio dia,
que a minha filha foi concebida

                                          sem pecado


estava sol
:)

domingo, março 20, 2005

chove em Lisboa

e os pássaros cantam
:)

quarta-feira, março 16, 2005

mes mains volent pour se rejoindre

Comme des colombes en désaccord
mes mains volent entre les secrets
pour se rejoindre dans la saison
où les oiseaux chantent l'amour
d'être entourés d'eux mêmes.

Natália Correia
13set23/16mar93

inédito (56/57)

quarta-feira, março 09, 2005

domingo, março 06, 2005

fuga

deixem-me ficar aqui
dormir
e saber que o comboio me espera
no lago
no silêncio assombrado
dentro da boca
Partir
"poeticamente habitar"
comer a terra
e subir às árvores
       no desespero da fuga
Estar só
com medo da solidão
    E viver aí
        saboreando o azedo visceral
                da inquietude

1973

quarta-feira, março 02, 2005

Do amor que acorda o espírito que dorme

A ALMA
Votada ao fogo obediente ao perigo
feroz do amor ser muito e o tempo pouco,
Chegas ébrio de sonho, ó estranho amigo
E eu não sei se por mim és anjo ou louco.

Num beijo infindo queres morrer comigo.
Nesse extremo és sagrado e eu não te toco.
Esquivo-me: o teu sonho mais instigo.
Fujo-te: a tua chama mais provoco.

A incêndio do teu sangue me condenas
E com ciumentas ervas te envenenas
Dizendo às nuvens que só tu me viste.

Bebendo o vinho de amantes mortos queres
Que eu seja a mais prateada das mulheres.
E de ser tão amada eu fico triste.

Natália Correia
In Sonetos Românticos, 1990

domingo, fevereiro 27, 2005

terça-feira, fevereiro 22, 2005

miragem

Era uma vez uma pétala
ou um mar
ou nada
O princípio, queria dizer
O princípio

Era uma vez um calor que transbordou

Ilha, pedra, canto
e um rio em flor dentro de casa
Um dia de azul              miragem

Era uma vez
era uma
depois mil
         de uma vez

domingo, fevereiro 20, 2005

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

domingo, fevereiro 13, 2005

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

a princesinha branca


voltou ontem para a sua casa de adopção
depois de uma temporada aqui ao pé da mãe e dos irmãos
vou ficar atenta
;)

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

terça-feira, fevereiro 01, 2005

segunda-feira, janeiro 31, 2005

tu

eu sei que
tu         é uma palavra
difícil de dizer
nos olhos


sexta-feira, janeiro 28, 2005

o gato

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa
só como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de uma nave.

excerto de ode ao gato, de neruda

terça-feira, janeiro 25, 2005

o amor mais fundo

este é o amor mais fundo
porque a boca dela
repousa e fica doida
na boca dele
porque se abrem uma na outra
e querem morrer assim
uma na outra

abril94

domingo, janeiro 23, 2005

à memória da Bia, a gata de olhos de âmbar


Somente o traço que ficou no céu
importa agora
e se foi de alegria
em cada hora
e de busca de encontro e companhia
o quererá no céu sulcar também
com renovada asa
qualquer homem por vir
as nuvens tendo por casa
as estrelas por lanterna
e em cada breve momento
a vida eterna.


Agostinho da Silva
(poema para um pássaro morto)

quinta-feira, janeiro 20, 2005

faz parte...

ontem à tarde deixei a porta da cozinha entreaberta enquanto os meus pequenos gatos andavam na passeata do costume pelo quintal e arredores...

mais tarde dei-me conta de que tinha havido uma visita inesperada, quando me subiu ao nariz o inconfundível aroma de marcação de território de macho adulto
DENTRO DA COZINHA!! :/

andei a cheirar os cantos e as esquinas (riam-se, riam-se! :]
e percebi onde é que o diabo do gato visitante andou a fazer as suas aspergidelas

nem mais nem menos que DENTRO dos armários dos tachos e das loiças e tupperwares!!

tenho um belo trabalhinho para esta tarde...
fiquem bem
:)

quarta-feira, janeiro 19, 2005

terça-feira, janeiro 18, 2005

Ela e só ela

Sabes o que ele me disse? Que aquilo é como a primeira namorada. Adormeces a pensar nela e acordas a pensar nela.
Eu já sabia, já te tinha dito, lembras-te?, eu já sabia mas não queria ter a certeza.
Foi assim. Telefonei ontem à hora do almoço lá para casa e a mãe, devia ser a mãe, era a mãe com certeza, disse-me que ele ainda estava a dormir. Há uma data de dias que não o via, não podia mais. Peguei no carro e fui lá.
Quando cheguei, estava a tomar duche e tive de esperar um bocadinho no quarto dele. Ao lado da cama havia um monte de revistas e álbuns de banda desenhada. Na parede um poster a preto e branco do Ian Curtis aos saltos. Sabes, o dos Joy Division que morreu? No chão, a roupa da noite. Entrou tão silenciosamente que, com o susto, gritei. Estava lindo, tão lindo dentro do roupão azul escuro. Nem imaginas como ele é lindo.
Foi tomar o pequeno almoço na cozinha com a mãe e depois disse-me para voltar com ele lá para cima. Fechou a porta atrás de nós mas não a fechou à chave, mas eu pensei de qualquer modo que ele me ia agarrar, beijar, deitar. Eu ainda só dormi com ele duas vezes, mas devia ser proibido fazer amor assim. Agarrou-me por dentro, sabes? Devia ser proibido. Uma pessoa não pode fazer nada.
Mas ele não me agarrou. Tomou um ar sério e disse-me para não ter medo e depois sorriu. Então começou a preparar aquilo. Eu não estava assustada mas fiquei muda todo o tempo. Passavam-me coisas tão depressa pela cabeça que eu não conseguia pensar em nada. Não conseguia tirar os olhos daquilo. Depois arrumou tudo e pôs um disco, como se nada fosse. Eu fiz de conta. Passado um bocadinho chegou um amigo dele, o Tó. Beberam uma cerveja e depois o Tó foi-se embora. Ele voltou a fechar a porta e voltou a preparar aquilo e a fumar aquilo. Para atestar, disse, percebes? Eu não lhe disse nada. Ele gostava mais daquilo do que de mim. Muito mais, tive a certeza. Apeteceu-me chorar mas não chorei. Olhei o Ian Curtis que continuava no seu salto e fiz como se tudo aquilo me fosse indiferente. Uma pessoa consegue.
Mas eu sei muito bem, eu é que lhe sou indiferente. Eu e o resto. Menos aquilo. O que aquilo faz é tornar tudo o resto indiferente, sabes? O verdadeiro inferno. Não me agarrou. Eu é que tive de o agarrar. Parecia um bebé a sorrir. E eu gosto tanto dele, merda. Despi-o e fiz-lhe amor e foi então, logo a seguir, que ele me disse: "Sabes, aquilo é como a primeira namorada. Adormeces a pensar nela e acordas a pensar nela."

Pedro Paixão
Viver todos os dias cansa, 95

segunda-feira, janeiro 17, 2005

O António no hospital

Eu brincava com os dedos grandes dos pés dele, por debaixo dos lençóis todos brancos, enquanto ele dizia disparates, só disparates.

- Por ti deixava de roer as unhas e pintava-as de amarelo. Por ti sacrificava a minha pomba favorita. Tornava concretas todas as minhas ânsias. Por ti fazia tudo, menos que de mim fizesses outro.

Entretanto a fama da sua beleza percorria os corredores assépticos. Insistia em que lhe lavassem o cabelo, a ele que já nem sequer andar sabia. Por vezes duas facas espetavam-se-lhe nas costas e fazia uma careta que logo desfazia.

Eu continuava a brincar com os dedos grandes dos pés dele. Ele era como o mel e ninguém sabia porquê. Eu sim. Eu era a abelha subindo no ar que iria com ele até ao fim de tudo.


Pedro Paixão
Histórias verdadeiras,94

sábado, janeiro 15, 2005

terça-feira, janeiro 11, 2005

segunda-feira, janeiro 10, 2005

o cerco

essa tua boca em que eu me perco
é o meu cerco
é o meu aperto
e eu não sei ao certo
se te quero perto
se te quero longe para sempre

sexta-feira, janeiro 07, 2005

puma


só o gato
apareceu completo
e orgulhoso
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer


excerto da Ode ao gato, de Neruda

quinta-feira, janeiro 06, 2005

quarta-feira, janeiro 05, 2005

canção para ti (1980)

anoiteceu, meu amor
o dia desceu no mar
escrevo o teu nome na areia
o tempo parou por instantes
vagueavas sozinho na praia
juntei-me a ti, mergulhei no teu silêncio mágico
lentamente

anoiteceu, meu amor, pressinto-te perto
corro descalça por ti, a lua poisou-te nos olhos
e soltei os cavalos do vento, demos as mãos
caminhámos num abraço eterno
tão ao longe

encontrei-te no mar, percorri-te de cor
nos teus braços de amor adormeci
embarquei no milagre que há em ti
perdi-me contigo no silêncio do cais...

amanheceu, meu amor
por dentro nasceu o sol
sobes por mim devagar, procuras o céu no meu corpo
num sorriso os teus olhos encontram nos meus
mais uma estrela que se acendeu
em ti deslizo mansamente


l.a.1980

terça-feira, janeiro 04, 2005

Helena, por quem os gregos se bateram

A Helena veio ontem visitar-nos. Telefonou do carro a dizer que vinha a caminho e trouxe o namorado. A Helena que eu não via há muito tempo por preguiça, medo, coisas árduas de lembrar, mal chegou tirou os sapatos e colocou-se em várias posições sobre os sofás da sala enquanto tocava nos assuntos mais diversos.
"A vida é uma coisa muito bonita que se estraga facilmente, tu não achas? Tens visto o nosso amigo João Luís?"
O João Luís há três anos que está fechado em casa, os estores corridos para não saber se é noite ou se é dia. Desde que caiu no patamar das escadas e partiu a mão nunca mais tocou um instrumento. Acredita que no céu vai poder mostrar todas as suas potencialidades. Deus queira.
"Tudo acabou como não devia. Foram sete anos só a viver para aquilo. Foi bom o tempo que dura uma nova paixão, uns seis meses. Depois é um inferno que tu não queres largar nem por nada. Quando entrei na clínica ia a ressacar, era a única, os outros tinham todos tomado a dose da manhã. Hás de me escrever uma canção, que eu quero subir ao palco outra vez. Ouviste?"
E pergunta-me pelo meu irmão Emmanuel que explodiu em casa depois de sete anos a tomar má heroína em vários estabelecimentos prisionais espalhados pelo país. Eu lembro-lhe de há muitos anos ela não me querer senão para chofer e, quando muito, amante ocasional.
"Sobreviver ao sucesso foi mais difícil do que tudo. De resto faço Chi Kung três vezes por semana como uma imperatriz da china imperial. Tu também não estás com mau aspecto. Não tomo comprimidos, detesto todos os químicos e nem quero microondas em casa."
A bela Helena, por quem os gregos se bateram, trazia o cabelo curto, os olhos cansados de ver coisas muito duras de se ver e tinha engordado alguns quilinhos espalhados pelo corpo. O que fazer quando deus nos deu um só talento assim tão grande e não se pode trabalhar?
Não sei o que vai acontecer. Por vezes penso que é bom poder voltar mais uma vez à superfície desta terra e adormeço tão suavemente que nem me dou conta de que partiram.


Pedro Paixão
Nos teus braços morreríamos, 98

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Ode à Paz


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!


Natália Correia, 1989