segunda-feira, julho 26, 2004

sesta


A flor que és

A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor! 

Ricardo Reis

domingo, julho 25, 2004

Lisboa à noite

quando à saída do clube da praça da alegria alguém perguntou "vamos até ao mahjong?", resolvi ir com os rapazes e pedi a um deles que levasse o meu carro, que sempre que tenho oportunidade aproveito um motorista
e lá fomos até ao bairro, eles os dois à frente e eu no banco de trás, e na rua da misericórdia havia um lugarito mesmo fixe à espera
a noite continuou, encontrámos mais um ppl bacano, fomos ficando, e tal...
quando os amigos com quem eu tinha saído do clube resolveram vir embora do mahjong e eu queria ficar mais um pouco, um deles pediu-me a chave do meu carro (a guitarra tinha ficado na mala) e eu passei-lha... (só que me esqueci de o avisar de que tinha que desligar o alarme e aquilo começou aos gritos, à uma e meia da matina mesmo ali ao lado do bairro alto, e ele a tirar a guitarra do carro, a fechá-lo sei lá como, e a bazar cheio de nervos com a guitarra... mas isso eu só fiquei a saber no dia seguinte)
fiquei na tertúlia com conhecidos meus do teatro e do cinema, um grupo de actores e técnicos que tinha chegado de um filme na covilhã, se bem me lembro
eram já umas 5 e eu despedi-me para apanhar um taxi, que depois de 3 gins era mesmo o que eu devia fazer: taxi para casa e mainada! pois...
só que mal entrei no taxi deu-me uma veneta de ir buscar o meu carrito e disse "praça da alegria, por favor"
ok, chegámos à dita praça, e, como de repente me dei conta, o meu carro não estava lá... "ops, o carro não está aqui, desculpe" e eu a tentar manter a compostura, e tal, e o taxi driver a responder "não acha melhor seguir para casa?" e eu: "bem... enfim... sim, claro, é mais sensato, pois...”
ok, lá subimos até monsanto e depois até alfragide norte, paguei, agradeci, saí... (isto já eram umas 5 e meia) e comecei a procurar a chave de casa... o taxi driver era um senhor, ou coisa que o valha, e ficou à espera que eu entrasse no prédio, benza-o Deus.. ok... a chave não constava! pois...
e lá voltámos a subir e a descer monsanto, eu à toa, a rezar para que a chave não tivesse ficado perdida algures no bairro... (e o meu kato não tinha a chave de casa)
chegando à rua da misericórdia, já o sol tinha começado a subir no horizonte, ainda foi preciso passar pela praxadela de fazer disparar o alarme, que tinha ficado trocado desde que o nuno lá tinha ido umas horas antes buscar a guitarra
ok, a bendita chave de casa tinha ficado no bolso do casaco que eu tinha deixado no banco de trás do carro, que a noite tava fresquita e eu levei um outro mais quente... com o susto passou-me a moca do gin, claro está... e trouxe o carro para casa, onde o meu kato me recebeu com ternurinhas junho2002

sexta-feira, julho 09, 2004

só uma vez

parte comigo
só uma vez
toca-me no ombro
para um passeio de barco sem vento nem sol
num dia cinzento de Verão

chama-me no campo das oliveiras
e das pedras do rio manso
onde embarcámos um dia no silêncio da chuva

parte comigo
só uma vez

quarta-feira, julho 07, 2004

Ode ao gato

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite escura até aos olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa
única como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma única
ranhura
para lançar as moedas da noite.

Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no chão,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica
o gineceu com os seus extravios,
o mais e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
A minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.

Pablo Neruda

terça-feira, julho 06, 2004

madrugada

calmaria de bonança me inunda os braços de mar
já caídos sob a maré vazia do teu corpo
lua cheia numa madrugada suave e límpida
como água corrente
sussurrar de ramos floridos no outono
frases soltas e dispersas, soluçando nesta mesa
de telhas partidas

Ouvi-te. Cantavas no cimo da colina, com um
pássaro poisado no corpo mansamente belo e
transparente.
Queria viver assim, simples, crua, fluida.
Como uma estrela pendurada nos teus cabelos.

quinta-feira, julho 01, 2004

jardim da sombra

toca-me de mansinho
e leva-me pela mão
ao jardim onde embarcámos um dia
no silêncio da chuva

percorre-me na sombra
e sê comigo
num momento eterno de sorriso