terça-feira, janeiro 04, 2005

Helena, por quem os gregos se bateram

A Helena veio ontem visitar-nos. Telefonou do carro a dizer que vinha a caminho e trouxe o namorado. A Helena que eu não via há muito tempo por preguiça, medo, coisas árduas de lembrar, mal chegou tirou os sapatos e colocou-se em várias posições sobre os sofás da sala enquanto tocava nos assuntos mais diversos.
"A vida é uma coisa muito bonita que se estraga facilmente, tu não achas? Tens visto o nosso amigo João Luís?"
O João Luís há três anos que está fechado em casa, os estores corridos para não saber se é noite ou se é dia. Desde que caiu no patamar das escadas e partiu a mão nunca mais tocou um instrumento. Acredita que no céu vai poder mostrar todas as suas potencialidades. Deus queira.
"Tudo acabou como não devia. Foram sete anos só a viver para aquilo. Foi bom o tempo que dura uma nova paixão, uns seis meses. Depois é um inferno que tu não queres largar nem por nada. Quando entrei na clínica ia a ressacar, era a única, os outros tinham todos tomado a dose da manhã. Hás de me escrever uma canção, que eu quero subir ao palco outra vez. Ouviste?"
E pergunta-me pelo meu irmão Emmanuel que explodiu em casa depois de sete anos a tomar má heroína em vários estabelecimentos prisionais espalhados pelo país. Eu lembro-lhe de há muitos anos ela não me querer senão para chofer e, quando muito, amante ocasional.
"Sobreviver ao sucesso foi mais difícil do que tudo. De resto faço Chi Kung três vezes por semana como uma imperatriz da china imperial. Tu também não estás com mau aspecto. Não tomo comprimidos, detesto todos os químicos e nem quero microondas em casa."
A bela Helena, por quem os gregos se bateram, trazia o cabelo curto, os olhos cansados de ver coisas muito duras de se ver e tinha engordado alguns quilinhos espalhados pelo corpo. O que fazer quando deus nos deu um só talento assim tão grande e não se pode trabalhar?
Não sei o que vai acontecer. Por vezes penso que é bom poder voltar mais uma vez à superfície desta terra e adormeço tão suavemente que nem me dou conta de que partiram.


Pedro Paixão
Nos teus braços morreríamos, 98

12 comentários:

chOURIÇO disse...

Ena pá!

Grande texto. Situações de limite.

Nem sei o que escrever.

Não escrevo.

Rodrigues disse...

Eu nem tento, Chouriço...

lena disse...

meus queridos...
*;)

Draco disse...

Sempre gostei de ler os textos do Pedro Paixão.
Quando vivia no Alentejo lia-os muitas vezes. Depois vim para Lisboa e muita coisa mudou.
Os livros dele ficaram lá.
Os novos não os comprei.
Quando conheci o meu companheiro, mandava-lhe pelo correio por vezes algumas frases tiradas dos seus textos. O meu companheiro não conhecia o Pedro Paixão. Não era - e não é - dado a leituras.
Sempre pensei na sua escrita com poesia em prosa.

Quanto ao conteúdo...(sorriso), são fragmentos de uma vida vistos com nostalgia. Não me compete a mim...
O texto é bonito.

Anita disse...

Eu fiquei contente quando soube que o texto é de 98.

lena disse...

(e esta visita, de 97 ;)

prosa poética, sim
tenho saudades do pedro, há anos que o não vejo

lena disse...

olha, draco, arrumei mais uns do pedro no primeiro dia de dezembro
se quiseres espreitar... ;)*


(e um dia eu conto a minha versão! =8)

Draco disse...

Já estive a ler os textos de 1 de Dezembro.
Divinais.
Curiosa a vida das pessoas. Deve ser engraçado para ti ler estas histórias, mesmo que "adornadas poéticamente"...
Davam bons argumentos para filmes tipo Woody Allen.

lena disse...

LOL
se davam, nem te passa!! eu e o pedro juntos e ao vivo!!
foram tempos gloriosos, esses! :D

lena disse...

acabei de fazer uma correcção a este texto, porque há coisas que eu não suporto ler por não corresponderem à verdade, como por exemplo isto:

"Há quem diga que mais vale só que mal acompanhada. Eu não concordo. O pior é a solidão e o tédio."

isto eram ideias dele, por isso editei
;)

Rodrigues disse...

Ainda fazes chi kung três vezes por semana?


Eu faço. :)

lena disse...

eu já não &;}